É mais fácil aprender com quem admiramos.
Com quem respeitamos.
Com quem possui experiência reconhecida.
Com quem pensa parecido conosco.
Mais difícil é perceber que Deus também pode nos ensinar por meio de pessoas que não escolheríamos como mestres.
Alguém mais jovem.
Uma pessoa com menos experiência.
Quem pensa diferente.
Quem já criticamos.
Quem julgamos superficialmente.
Talvez até alguém cuja história nos levou a acreditar que não teria nada a nos oferecer.
O julgamento fecha portas antes que a verdade possa entrar.
Construímos uma conclusão sobre a pessoa.
E, depois disso, tudo o que ela diz passa por essa conclusão.
“Ela não entende.”
“Ele não tem maturidade.”
“Não preciso ouvir isso dessa pessoa.”
Podemos estar tão ocupados avaliando quem fala que deixamos de perceber aquilo que Deus talvez queira nos mostrar através da fala.
Jesus conheceu esse tipo de resistência.
Quando começou a ensinar em sua própria região, muitos ficaram admirados, mas logo começaram a olhar para sua origem:
“Não é este o filho do carpinteiro?”
(Mateus 13:55)
A familiaridade tornou-se obstáculo.
Eles acreditavam já saber quem Jesus era.
E aquilo que pensavam saber impediu muitos de reconhecer o que estava diante deles.
Existe um perigo parecido em nossos julgamentos.
Quando acreditamos já ter compreendido completamente uma pessoa, deixamos pouca abertura para sermos surpreendidos.
A humildade mantém uma porta aberta:
“Talvez exista algo aqui que eu ainda não enxerguei.”
Todos fazemos avaliações sobre as pessoas.
Isso faz parte da vida.
Observamos comportamentos.
Experiências.
Escolhas.
Competências.
E precisamos de discernimento.
Nem toda voz deve ter a mesma influência sobre nós.
Nem todo conselho é sábio.
Humildade não significa abandonar critérios.
Mas existe diferença entre discernir e desprezar.
O discernimento pergunta:
“Isso é verdadeiro?”
O orgulho pergunta:
“Quem essa pessoa pensa que é para me dizer isso?”
Essa diferença revela muito.
Às vezes, rejeitamos uma verdade não pelo conteúdo, mas por causa de quem a trouxe.
Se a mesma frase viesse de alguém que admiramos, talvez ouviríamos.
Mas, como veio de alguém que julgamos inferior, imaturo ou pouco preparado, nossa defesa aparece antes da reflexão.
O coração humilde consegue separar a mensagem do status do mensageiro.
Pode perguntar:
“Há algo verdadeiro aqui?”
Mesmo quando a forma não foi perfeita.
Mesmo quando a pessoa também possui falhas.
Mesmo quando não gostaríamos de receber aquela observação dela.
Isso exige segurança.
Porque ouvir alguém que julgamos pode parecer uma inversão de posição.
Talvez tenhamos nos acostumado a ser aquele que ensina.
Orienta.
Corrige.
Explica.
E, de repente, alguém que colocávamos em outro lugar nos mostra algo que não percebíamos.
O ego resiste.
Mas a humildade pode dizer:
“Talvez eu tenha algo a aprender.”
Essa frase não transforma o outro em autoridade absoluta.
Apenas nos torna ensináveis.
E ser ensinável é uma das marcas mais bonitas da maturidade espiritual.
Uma pessoa madura não acredita que já aprendeu tudo.
Ela consegue receber de lugares inesperados.
Uma criança pode revelar simplicidade.
Alguém mais jovem pode enxergar algo que nossa experiência tornou difícil perceber.
Uma pessoa com história diferente pode mostrar um ponto cego da nossa visão.
Até alguém com quem temos conflitos pode revelar alguma verdade sobre nossas reações.
Isso não significa que toda crítica esteja correta.
Mas significa que até uma crítica imperfeita pode carregar uma pergunta útil.
Talvez alguém diga algo de maneira dura.
Podemos reconhecer que a forma foi inadequada.
E ainda perguntar:
“Existe alguma parte do conteúdo que preciso considerar?”
A humildade não exige aceitar tudo.
Exige não rejeitar automaticamente tudo.
Também existem pessoas que julgamos por sua história.
Conhecemos um erro.
Uma fase difícil.
Uma escolha ruim.
E, sem perceber, congelamos aquela pessoa naquele momento.
Depois, quando ela cresce, aprende ou desenvolve algo valioso, ainda enxergamos apenas a versão antiga.
Nesse caso, o julgamento não aprisiona apenas o outro.
Também limita nossa capacidade de receber aquilo que Deus já produziu nele.
Talvez uma das formas de humildade seja permitir que as pessoas mudem dentro da nossa percepção.
Reconhecer:
“Eu pensei que conhecia completamente essa pessoa.”
“Talvez não conhecesse.”
Isso não é ingenuidade.
É abertura.
Jesus constantemente surpreendia as expectativas das pessoas.
Escolheu discípulos que muitos não escolheriam.
Aproximou-se de gente que outros desprezavam.
Usou samaritanos em suas histórias como exemplos de compaixão.
Recebeu crianças quando os discípulos tentavam afastá-las.
O Reino de Deus repetidamente desloca nossas hierarquias.
Talvez porque Deus não veja as pessoas apenas pelas categorias que utilizamos.
Nós enxergamos posição.
Formação.
História.
Reputação.
Ele enxerga também possibilidades.
Por isso, pode colocar uma palavra importante justamente na boca de alguém que não impressionaria nossos critérios.
Isso exige uma disposição interior simples:
“Senhor, ensina-me através de quem Tu quiseres.”
Essa oração pode ser desconfortável.
Porque talvez Deus responda através de alguém de quem discordamos.
Alguém que já criticamos.
Alguém que não possui nossa experiência.
Ou alguém que toca justamente numa área que preferíamos não examinar.
A humildade não escolhe antecipadamente o mensageiro.
Ela examina aquilo que recebe diante de Deus.
Esse movimento também nos protege da arrogância espiritual.
Quanto mais aprendemos, maior pode ser a tentação de acreditar que já possuímos respostas suficientes.
Conhecimento pode produzir gratidão.
Mas também pode produzir rigidez.
Começamos a ouvir menos.
A perguntar menos.
A ser surpreendidos menos.
Por isso, permanecer discípulo exige permanecer ensinável.
Sempre haverá algo que ainda não vimos.
Algo que outra história poderá nos mostrar.
Algo que Deus poderá revelar através de uma voz improvável.
Talvez hoje exista alguém que você já colocou numa categoria fechada.
“Não sabe.”
“Não entende.”
“Não tem nada a me ensinar.”
Não precisa transformar essa pessoa em referência.
Apenas retire a sentença definitiva.
Ouça.
Observe.
Discernindo.
Talvez não exista nada novo ali.
Mas talvez exista uma verdade que seu julgamento ainda não deixou chegar.
A humildade não nos pede que confiemos em todas as vozes.
Pede apenas que não confundamos nosso julgamento com a voz final de Deus.
Pense em alguém cuja opinião você costuma descartar rapidamente.
O que faz você rejeitar essa pessoa?
Sua idade?
História?
Formação?
Jeito de falar?
Um erro antigo?
Uma diferença de opinião?
Agora pergunte com sinceridade:
Existe algo que Deus pode estar tentando me ensinar através de alguém que eu já decidi não ouvir?
Não abandone o discernimento.
Apenas deixe o coração aberto.
Talvez hoje o exercício seja ouvir antes de classificar.
Senhor Jesus,
mantém meu coração ensinável.
Livra-me da arrogância que acredita já saber quem pode ou não pode me ensinar.
Das conclusões rápidas.
Dos rótulos.
Do desprezo escondido atrás da certeza de que tenho mais experiência ou conhecimento.
Dá-me discernimento para reconhecer aquilo que é verdadeiro.
Mas também humildade para recebê-lo, mesmo quando vier de um lugar inesperado.
Ensina-me a ouvir pessoas diferentes de mim.
A aprender com quem possui outra história.
A reconhecer quando alguém que julguei também tem algo valioso a oferecer.
Não permita que meu conhecimento endureça meu coração.
Nem que minha experiência me torne incapaz de aprender.
Quando uma crítica chegar, ajuda-me a separar a forma do conteúdo.
Quando eu estiver errado, dá-me liberdade para admitir.
Quando meu julgamento tiver sido injusto, dá-me humildade para revê-lo.
Senhor, continua sendo meu Mestre.
E, se quiseres me ensinar através de alguém que eu jamais escolheria, mantém meu coração aberto para reconhecer Tua voz.
Amém.
Deixe o seu comentário: