Há momentos em que amar parece fácil.
O coração está tranquilo.
A convivência está leve.
A outra pessoa nos compreende.
Nossos gestos são recebidos com gratidão.
Existe proximidade.
Existe reciprocidade.
Existe vontade de permanecer perto.
Nesses dias, o sentimento ajuda.
Mas nem todos os relacionamentos são vividos assim o tempo inteiro.
Há dias de cansaço.
Dias de irritação.
Dias em que uma palavra nos fere.
Dias em que não nos sentimos compreendidos.
Dias em que a decepção fala mais alto do que o afeto.
Dias em que gostaríamos de nos afastar, responder com frieza ou simplesmente deixar de nos importar.
É nesses momentos que descobrimos uma dimensão mais profunda do amor.
O amor ensinado por Cristo não depende apenas daquilo que sentimos.
Ele também se manifesta na forma como escolhemos responder ao que sentimos.
Amar não é produzir uma emoção que não existe.
Não é fingir ternura.
Não é negar a mágoa.
Não é agir como se nada tivesse acontecido.
Amar é não entregar o governo do coração à irritação, ao orgulho ou ao desejo de ferir.
É reconhecer:
“Não estou sentindo vontade de amar agora, mas também não quero permitir que minha dor decida tudo por mim.”
Jesus nos chama para um amor que vai além da reação imediata.
Um amor que não espera que o outro se torne perfeito para começar a fazer o bem.
Um amor que pode aparecer em uma palavra mais cuidadosa.
Em uma pausa antes da resposta.
Em uma oração feita em silêncio.
Em uma conversa verdadeira.
Em uma decisão de não revidar.
Em um limite estabelecido sem ódio.
A Palavra nos orienta:
“Amem os seus inimigos e orem por aqueles que perseguem a vocês.”
(Mateus 5:44)
Jesus não disse essas palavras porque ignorava a dificuldade dos relacionamentos.
Ele sabia que o coração humano se fere.
Sabia que algumas palavras deixam marcas.
Sabia que a convivência pode despertar raiva, medo e resistência.
Ainda assim, mostrou que o amor pode começar antes que o sentimento esteja pronto.
Às vezes, amar será uma emoção.
Em outras vezes, será uma escolha.
E existem dias em que essa escolha será uma das formas mais sinceras de seguir Cristo.
É comum pensarmos que amar alguém significa sentir carinho, proximidade e alegria em sua presença.
Quando esses sentimentos diminuem, começamos a perguntar:
“Será que ainda existe amor?”
Mas o amor cristão não pode ser medido apenas pela intensidade das emoções.
Os sentimentos fazem parte dos relacionamentos.
São importantes.
Revelam o que está acontecendo dentro de nós.
Mas mudam com o tempo, com o cansaço, com as circunstâncias e com as experiências que vivemos.
Em um mesmo relacionamento, podemos experimentar gratidão e frustração.
Proximidade e necessidade de espaço.
Alegria e decepção.
Desejo de cuidar e vontade de ficar em silêncio.
Isso não significa necessariamente que o amor desapareceu.
Significa que estamos convivendo com pessoas reais.
Pessoas que acertam e erram.
Que nos acolhem em alguns momentos e nos decepcionam em outros.
Assim como nós também fazemos.
Por isso, amar como Cristo amou exige algo mais profundo do que seguir apenas aquilo que sentimos no momento.
Exige uma direção interior.
Uma escolha sobre quem desejamos ser diante do outro.
O sentimento pode dizer:
“Responda da mesma maneira.”
O amor pergunta:
“Como posso responder sem aumentar a ferida?”
O sentimento pode dizer:
“Faça com que essa pessoa sinta a mesma dor.”
O amor pergunta:
“Como posso dizer a verdade sem transformar minhas palavras em armas?”
O sentimento pode dizer:
“Feche o coração para nunca mais sofrer.”
O amor pergunta:
“Como posso me proteger sem permitir que a amargura tome conta de mim?”
É nesse espaço entre o sentimento e a resposta que o discipulado acontece.
Sentir raiva não é o mesmo que escolher ferir.
Sentir decepção não é o mesmo que condenar para sempre.
Sentir cansaço não é o mesmo que deixar de amar.
Sentir vontade de se afastar não significa que precisamos romper tudo por impulso.
Podemos levar aquilo que sentimos à presença de Cristo antes de transformá-lo em ação.
Podemos dizer:
“Senhor, eu estou irritado.”
“Estou magoado.”
“Não quero conversar agora.”
“Não sei como agir.”
“Tenho vontade de devolver o que recebi.”
Cristo não se assusta com a verdade do nosso coração.
Ele não exige que cheguemos diante Dele com os sentimentos organizados.
Podemos chegar confusos.
Feridos.
Contraditórios.
Querendo perdoar e ainda sentindo raiva.
Desejando a paz e ainda repetindo a discussão dentro da mente.
Querendo amar e, ao mesmo tempo, querendo distância.
A sinceridade diante de Deus não é falta de fé.
É o começo da transformação.
Quando apresentamos nossos sentimentos a Cristo, criamos espaço para que eles deixem de governar sozinhos.
Talvez a irritação não desapareça imediatamente.
Mas ela já não precisa controlar nosso tom.
Talvez a decepção continue presente.
Mas ela não precisa se transformar em crueldade.
Talvez ainda não exista proximidade.
Mas pode existir respeito.
Talvez o coração ainda não esteja pronto para um grande gesto.
Mas pode estar pronto para não revidar.
O amor começa, muitas vezes, em pequenas escolhas.
Esperar antes de responder.
Não enviar a mensagem escrita no auge da raiva.
Ouvir antes de concluir.
Perguntar antes de acusar.
Não comentar a fragilidade do outro com pessoas que não fazem parte da situação.
Não usar uma confidência como arma durante uma discussão.
Reconhecer o próprio erro.
Pedir perdão sem acrescentar uma justificativa.
Orar por alguém que se tornou difícil de amar.
Essas escolhas podem parecer pequenas.
Mas elas interrompem o movimento automático da ferida.
Quando somos machucados, existe uma tendência de reproduzir aquilo que recebemos.
A dureza gera dureza.
A indiferença gera indiferença.
A agressividade desperta agressividade.
O silêncio do outro pode nos levar a usar o silêncio como punição.
A palavra que nos feriu pode produzir em nós o desejo de encontrar uma palavra ainda mais dolorosa.
Cristo nos chama a interromper essa corrente.
Não porque aquilo que aconteceu não tenha importância.
Mas porque não precisamos permitir que o erro do outro defina nossa maneira de viver.
Amar quando o sentimento não ajuda não significa aprovar tudo.
O amor também caminha com a verdade.
Há momentos em que uma conversa precisa acontecer.
Uma ferida precisa ser reconhecida.
Uma atitude precisa mudar.
Um limite precisa ser estabelecido.
O amor não exige que permaneçamos silenciosos diante do que está destruindo a relação.
Mas muda a maneira como falamos.
Podemos dizer a verdade para trazer clareza ou para causar vergonha.
Podemos estabelecer um limite para proteger a relação ou para punir o outro.
Podemos nos afastar por discernimento ou para provocar culpa.
Por fora, algumas atitudes podem parecer semelhantes.
Mas a intenção do coração faz diferença.
Por isso, antes de agir, podemos perguntar:
“Estou buscando cura ou vingança?”
“Quero ser compreendido ou quero vencer?”
“Estou estabelecendo um limite ou tentando punir?”
“Esta palavra é necessária ou apenas dolorosa?”
Cristo pode nos dar firmeza sem agressividade.
Verdade sem humilhação.
Coragem sem crueldade.
Mansidão sem passividade.
Ele não nos ensina a suportar tudo em silêncio.
Ensina-nos a não responder ao mal reproduzindo o mal.
Talvez exista alguém que você esteja achando difícil amar hoje.
Uma pessoa da família.
Alguém do trabalho.
Uma amizade.
Uma pessoa da igreja.
Alguém que participa da sua rotina e desperta impaciência.
Talvez o problema não seja uma grande ofensa.
Talvez seja o desgaste das pequenas coisas.
Uma maneira de falar.
Um comportamento repetido.
Uma diferença de personalidade.
Uma expectativa que nunca é atendida.
Uma sensação de não ser ouvido.
Essas pequenas tensões também podem endurecer o coração.
Pouco a pouco, passamos a interpretar tudo da pior maneira.
Um atraso parece desinteresse.
Um silêncio parece desprezo.
Uma observação parece ataque.
Uma diferença parece rejeição.
Já não reagimos apenas ao que está acontecendo.
Reagimos a tudo o que acumulamos.
Por isso, amar também exige revisar a maneira como estamos enxergando o outro.
Talvez nem toda atitude tenha a intenção que atribuímos a ela.
Talvez aquela pessoa também esteja cansada.
Também esteja enfrentando lutas que não conhecemos.
Também esteja reagindo a feridas antigas.
Isso não transforma todo erro em acerto.
Mas pode ampliar nossa visão.
Quando enxergamos alguém apenas pela lente da mágoa, tudo o que essa pessoa faz parece confirmar nossa dor.
Cristo pode nos ajudar a olhar novamente.
Não com ingenuidade.
Mas com misericórdia.
Misericórdia não é chamar o erro de certo.
É recusar-se a reduzir uma pessoa ao seu pior momento.
É lembrar que todos nós precisamos de graça.
É reconhecer que também falhamos em amar.
Também respondemos mal.
Também interpretamos de maneira equivocada.
Também ferimos pessoas sem perceber imediatamente.
O amor cristão nasce dessa consciência.
Não amamos de um lugar de superioridade.
Amamos como pessoas que também estão sendo transformadas.
Como pessoas que dependem diariamente da paciência de Deus.
Como pessoas que foram acolhidas por Cristo antes de terem tudo resolvido.
Quando nos lembramos da graça que recebemos, nosso coração encontra uma nova maneira de responder.
Isso não torna o relacionamento fácil.
Mas muda a fonte da nossa atitude.
Já não amamos apenas porque o outro merece.
Amamos porque pertencemos a Cristo.
Não perdoamos porque a dor foi pequena.
Perdoamos porque não queremos permanecer governados por ela.
Não escolhemos a mansidão porque somos fracos.
Escolhemos porque confiamos que não precisamos vencer todas as batalhas para preservar nosso valor.
Talvez hoje você não consiga sentir ternura.
Talvez ainda não esteja pronto para uma conversa profunda.
Talvez não saiba como restaurar a relação.
Tudo bem.
Você não precisa resolver tudo hoje.
O amor pode começar com o próximo passo possível.
Talvez seja apenas não responder no impulso.
Talvez seja deixar de alimentar uma conversa imaginária.
Talvez seja fazer uma oração sincera.
Talvez seja reconhecer:
“Eu também contribuí para essa distância.”
Talvez seja dizer:
“Precisamos conversar, mas quero fazer isso quando estivermos mais tranquilos.”
Talvez seja estabelecer um limite com respeito.
Talvez seja oferecer um gesto simples de cuidado.
Não espere sentir algo extraordinário para começar.
A obediência nem sempre chega acompanhada de entusiasmo.
Algumas escolhas de amor são feitas com o coração ainda cansado.
Mas, quando entregues a Cristo, elas podem abrir espaço para uma transformação que ainda não conseguimos ver.
O sentimento pode demorar a acompanhar.
A confiança pode precisar ser reconstruída.
A proximidade pode exigir tempo.
Mas a direção já pode mudar hoje.
Amar quando o sentimento não ajuda é dizer:
“Minha emoção é real, mas ela não será minha única guia.”
“Minha dor merece ser reconhecida, mas não determinará tudo o que farei.”
“Eu não posso controlar o outro, mas posso entregar a Cristo a minha forma de responder.”
Essa escolha não nasce apenas da força de vontade.
Nasce da comunhão com Jesus.
É o amor Dele que sustenta o nosso.
É a paciência Dele que nos ensina a ser pacientes.
É a misericórdia Dele que nos lembra de não transformar ninguém em um caso perdido.
É a presença Dele que ocupa o espaço entre o que sentimos e o que escolhemos fazer.
Talvez hoje o sentimento não ajude.
Mas Cristo continua presente.
E, com Ele, uma nova resposta sempre pode começar.
Pense em uma pessoa que tem sido difícil amar neste momento.
Não tente negar o que você sente.
Reconheça com sinceridade:
Há mágoa?
Impaciência?
Cansaço?
Decepção?
Desejo de se afastar?
Necessidade de ser compreendido?
Apresente esse sentimento a Cristo.
Depois, observe qual atitude ele tem produzido em você.
Você tem respondido com dureza?
Tem se fechado?
Tem alimentado discussões dentro da mente?
Tem evitado uma conversa necessária?
Tem tentado controlar a outra pessoa?
Permaneça alguns instantes em silêncio.
Como posso escolher o amor hoje, mesmo que o meu sentimento ainda não ajude?
Não tente resolver toda a relação.
Peça a Cristo apenas sabedoria para o próximo passo.
Pode ser uma palavra.
Uma pausa.
Uma oração.
Uma conversa sincera.
Um pedido de perdão.
Um gesto de cuidado.
Ou um limite estabelecido com respeito.
Senhor,
eu Te entrego os meus relacionamentos.
Especialmente aqueles que têm sido difíceis.
Tu conheces o que sinto.
Conheces minha irritação.
Meu cansaço.
Minhas decepções.
As palavras que ainda doem.
As conversas que continuo repetindo dentro da mente.
Eu não quero fingir que está tudo bem.
Mas também não quero ser governado pela mágoa.
Cristo, encontra-me entre o que sinto e a forma como respondo.
Quando eu quiser revidar, ensina-me a parar.
Quando minhas palavras estiverem carregadas de raiva, dá-me prudência.
Quando uma conversa for necessária, dá-me verdade e mansidão.
Quando eu precisar estabelecer limites, livra-me do desejo de punir.
Quando meu coração se fechar, lembra-me da graça que também recebo todos os dias.
Ajuda-me a não reduzir ninguém ao seu pior momento.
Mas também me dá sabedoria para não chamar de amor aquilo que alimenta o desrespeito e a dor.
Ensina-me a amar com verdade.
Com firmeza.
Com misericórdia.
Com liberdade.
Eu Te entrego a pessoa que veio ao meu coração.
Não posso controlar suas escolhas.
Não posso mudar seu interior.
Mas posso colocar diante de Ti a minha maneira de responder.
Mostra-me o próximo passo.
Talvez uma palavra.
Talvez uma pausa.
Talvez uma conversa.
Talvez um pedido de perdão.
Talvez apenas uma oração sincera.
Que o Teu amor seja maior do que minhas reações.
E que, mesmo quando o sentimento não ajudar, minhas escolhas revelem que eu caminho contigo.
Amém.
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