Nem sempre o silêncio está disponível ao nosso redor.
Há conversas acontecendo.
Mensagens chegando.
Pessoas pedindo atenção.
Tarefas que precisam continuar.
E, mesmo quando o ambiente fica quieto, podemos carregar por dentro os sons do dia inteiro.
Uma opinião.
Uma cobrança.
Uma preocupação.
Algo que ouvimos e ainda estamos tentando compreender.
Lucas conta que a notícia sobre Jesus se espalhava e que multidões se reuniam para ouvi-lo e buscar cura. Nesse contexto, registra que Ele se retirava para lugares solitários e orava (Lc 5:15–16).
Em meio a tantos encontros, Jesus reservava espaço para estar com o Pai.
Talvez hoje não consigamos nos afastar por muito tempo.
Mas podemos procurar pequenos momentos em que nossa atenção deixe de responder a tudo e se volte, com sinceridade, para Deus.
Um breve silêncio pode abrir espaço para perceber a presença de Cristo no dia que já está acontecendo.
Talvez o primeiro som da manhã venha do telefone.
Antes de perceber como você está, já existem notícias, mensagens e pedidos diante dos seus olhos.
Você responde a uma pessoa.
Lembra de uma tarefa.
Abre outra conversa.
E, em poucos minutos, sua atenção já percorreu lugares que o corpo ainda nem começou a alcançar.
Ao longo do dia, esse movimento continua.
Há informações úteis.
Assuntos importantes.
Pessoas que precisam de resposta.
Mas existe também uma quantidade de estímulos que recebemos quase sem escolher.
Um vídeo leva a outro.
Uma notícia desperta a busca por mais detalhes.
Um intervalo de poucos segundos logo é preenchido por alguma coisa.
Podemos terminar o dia tendo ouvido muitas vozes e quase não percebido o que aconteceu dentro de nós.
O ruído pode assumir formas diferentes.
Às vezes, é o volume do ambiente.
Em outras, é a sensação de estar sempre acessível.
Ou a necessidade de acompanhar tudo para não perder algo importante.
Há ainda o ruído da comparação.
Vemos o que outras pessoas fazem e começamos a rever nossa própria vida com pressa.
Parece que estamos atrasados.
Que deveríamos produzir mais.
Que existe alguma coisa acontecendo em outro lugar à qual precisamos responder.
Tudo isso ocupa espaço.
E pode tornar difícil perceber uma necessidade simples.
Estamos cansados.
Uma conversa nos feriu.
Precisamos de ajuda.
Há algo pelo qual gostaríamos de agradecer.
O silêncio pode nos ajudar a reconhecer essas coisas.
Mas, quando tentamos parar, talvez encontremos resistência.
A mão procura o telefone quase automaticamente.
A mente pergunta o que vamos fazer em seguida.
O intervalo parece longo, mesmo durando pouco.
Isso pode acontecer porque nos acostumamos a receber estímulos continuamente.
Podemos começar com delicadeza.
Alguns instantes antes de abrir as mensagens.
Uma caminhada curta sem ouvir nada nos fones.
Um café tomado com atenção.
Uma pausa depois de uma conversa difícil.
Podemos usar esses momentos para perguntar:
“Jesus, como estou chegando a este dia?”
Ou:
“O que preciso apresentar a Ti agora?”
Talvez a resposta venha em uma palavra.
Cansaço.
Gratidão.
Medo.
Alegria.
Talvez não venha nenhuma palavra clara.
Ainda assim, podemos permanecer um pouco.
A atenção a Deus pode começar antes de conseguirmos explicar tudo o que carregamos.
Ao observar Jesus se retirando para orar, encontramos uma relação que recebe tempo e espaço.
Essa lembrança pode nos ajudar a fazer escolhas concretas.
Talvez seja possível reservar alguns minutos para a leitura do Evangelho.
Talvez precisemos conversar sobre um período em que não estaremos disponíveis.
Talvez possamos silenciar notificações enquanto realizamos uma tarefa ou estamos com alguém.
Essas escolhas protegem nossa atenção.
E a atenção é uma parte importante da maneira como amamos.
Quando está continuamente dividida, podemos ouvir alguém apenas pela metade.
Responder antes de compreender.
Perceber uma necessidade e esquecê-la logo depois.
Pequenos momentos de recolhimento podem nos ajudar a voltar ao encontro seguinte com mais presença.
Talvez você saia de uma reunião inquieto.
Antes de entrar em outra conversa, pode parar por alguns instantes.
Reconhecer o que sentiu.
Apresentar isso a Jesus.
Pedir ajuda para não levar a irritação adiante sem perceber.
A situação anterior talvez continue sem solução.
Mas você pode começar a próxima conversa mais consciente do que está acontecendo dentro de si.
Esse pequeno espaço pode mudar uma resposta.
Pode ajudá-lo a ouvir.
A pedir alguns minutos.
A reconhecer que está cansado e precisa falar com mais cuidado.
Há também momentos de silêncio que nos permitem receber o que o dia oferece.
A luz entrando pela janela.
Uma refeição.
A presença de alguém querido.
Um gesto de ajuda que quase passou despercebido.
Podemos agradecer por essas coisas.
A gratidão encontra espaço quando conseguimos prestar atenção.
Não precisamos transformar cada detalhe em uma mensagem especial ou procurar um significado escondido em tudo.
Podemos simplesmente reconhecer o cuidado recebido e apresentá-lo a Deus.
Também é importante lembrar que perceber a presença de Cristo não depende de sentir algo extraordinário.
Talvez você faça uma pausa e continue com a mesma disposição.
Talvez a mente se distraia várias vezes.
Pode voltar com gentileza à oração que começou.
Pode ler novamente uma frase do Evangelho.
Pode dizer:
“Jesus, estou aqui.”
A simplicidade desse gesto não diminui sua sinceridade.
Nossa relação com Deus pode ser cultivada em encontros breves que, ao longo do tempo, encontram lugar na rotina.
E há dias em que o silêncio externo será muito limitado.
Uma casa com crianças pequenas.
Um ambiente de trabalho movimentado.
O cuidado contínuo de alguém.
Nessas condições, talvez você precise de apoio para conseguir uma pausa maior.
Enquanto isso, pode procurar um momento possível.
Alguns instantes enquanto lava as mãos.
Antes de começar uma tarefa.
Depois de encerrar uma ligação.
Um intervalo em que possa reconhecer a própria respiração e dirigir uma frase a Cristo.
Esses pequenos retornos podem conviver com a busca por tempos mais reservados de oração.
Aos poucos, aprendemos a perceber quanto ruído recebemos por necessidade e quanto passamos a acolher por hábito.
Podemos fazer escolhas.
Adiar uma consulta ao telefone.
Encerrar uma sequência de notícias.
Permitir que um intervalo permaneça sem preenchimento.
Talvez, nesse espaço, percebamos algo que precisava de atenção há muito tempo.
Uma oração que desejávamos fazer.
Uma pessoa que precisamos procurar.
Uma necessidade que temos ignorado.
Ou apenas a alegria de estar ali, diante de Deus, sem precisar responder imediatamente a mais alguma coisa.
Hoje, talvez o mundo ao redor continue barulhento.
Você pode procurar um pequeno espaço dentro desse dia.
E oferecê-lo a Cristo com a vida como está.
Observe um intervalo da sua rotina que costuma ser preenchido automaticamente.
Ao acordar.
Enquanto espera.
Durante uma pausa.
Antes de dormir.
Pergunte:
Que pequeno espaço posso oferecer à presença de Deus, em vez de preenchê-lo imediatamente com mais estímulos?
Escolha um momento possível.
Guarde o telefone, se puder, e permaneça alguns instantes com uma oração simples:
“Jesus, ajuda-me a estar aqui Contigo.”
Senhor Jesus,
há tantas vozes atravessando meus dias.
Informações.
Pedidos.
Preocupações.
E pensamentos que continuam mesmo quando tudo ao redor se aquieta.
Às vezes, recebo tudo isso sem perceber quanto minha atenção está cansada.
Ajuda-me a reconhecer quando preciso fazer uma pausa.
A escolher o que merece ser ouvido agora.
A guardar um pouco de espaço para estar Contigo.
Quero perceber o que acontece dentro de mim.
Apresentar minhas inquietações.
Reconhecer o cuidado recebido.
E voltar às pessoas com mais atenção.
Quando o silêncio me parecer estranho, ensina-me a permanecer com simplicidade.
Quando minha mente se dispersar, acolhe meu retorno.
Mostra-me os pequenos momentos possíveis deste dia.
E dá-me sabedoria para proteger também tempos mais tranquilos de oração e descanso.
Senhor, no meio de tudo o que ouço, ajuda-me a recordar Tua palavra.
Que eu encontre espaço para Te escutar e caminhar Contigo.
Amém.
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