“Está tudo bem.”
Às vezes, dizemos isso porque ainda não sabemos explicar o que sentimos.
Em outras, porque estamos com pressa.
Porque não queremos preocupar ninguém.
Ou porque aprendemos a guardar o que dói e continuar.
Mas pode chegar um momento em que levamos essa mesma resposta para a oração.
Falamos com Deus sobre muitas coisas, enquanto evitamos tocar justamente naquilo que mais precisa de cuidado.
Os Evangelhos nos mostram Jesus vivendo suas emoções com verdade. Diante da morte de Lázaro e da dor das pessoas que estavam ali, João registra:
“Jesus chorou.”
(João 11:35)
Ele permaneceu presente naquele encontro.
Ouviu.
Comoveu-se.
Chorou.
Ao contemplar essa cena, podemos encontrar espaço para uma aproximação mais sincera.
A paz de Cristo pode ser buscada com lágrimas, perguntas e sentimentos que ainda não conseguimos organizar.
Talvez alguém tenha perguntado como você estava hoje.
Você respondeu que estava bem.
E talvez uma parte disso fosse verdade.
Você conseguiu levantar.
Cumpriu algumas tarefas.
Conversou.
Seguiu o dia.
Mas havia também outra parte.
Uma tristeza que voltou ao acordar.
Uma preocupação que não saiu da mente.
A mágoa de uma conversa.
O cansaço de sustentar uma situação por muito tempo.
Nem sempre conseguimos falar sobre tudo quando alguém pergunta.
Há momentos e relações em que precisamos preservar nossa intimidade. Podemos escolher com quem compartilhar o que sentimos e quanto conseguimos dizer.
Essa escolha merece respeito.
Mas existe uma diferença entre guardar algo por cuidado e começar a acreditar que não temos permissão para senti-lo.
Talvez você tenha aprendido frases como:
“Preciso ser forte.”
“Não posso ficar assim.”
“Deveria agradecer mais.”
“Uma pessoa de fé não pode se abalar tanto.”
Aos poucos, a vida interior vai ficando sem espaço.
Sentimos tristeza e imediatamente tentamos corrigi-la.
Percebemos raiva e nos acusamos antes de compreender o que aconteceu.
Reconhecemos medo e procuramos escondê-lo atrás de palavras de confiança.
Então até a oração pode adquirir uma aparência tranquila que não corresponde ao que estamos vivendo.
Dizemos o que achamos que deveríamos sentir.
Mas deixamos de apresentar o que sentimos de fato.
Jesus conhece essa distância.
Podemos nos aproximar dEle e dizer:
“Estou tentando parecer bem, mas estou ferido.”
“Tenho falado de confiança, mas estou com medo.”
“Estou agradecido por muitas coisas e, ainda assim, sinto tristeza por esta.”
Essas palavras podem ser difíceis no começo.
Talvez pareçam pouco espirituais.
Mas trazem para a relação com Cristo a pessoa que realmente está ali.
Não precisamos esconder de Jesus a parte de nós que precisa ser acolhida.
Em João 11, Marta e Maria se encontram com Ele carregando a dor pela morte do irmão. Ambas dizem que, se Jesus estivesse ali, Lázaro não teria morrido.
Há sofrimento nessas palavras.
Há uma história que elas gostariam que tivesse sido diferente.
Jesus escuta e permanece no encontro.
O relato nos permite contemplar uma presença que se aproxima da dor, em vez de exigir que ela seja rapidamente encerrada.
Talvez precisemos aprender a permanecer assim diante dEle.
Dar nome a uma perda.
Reconhecer que uma atitude nos machucou.
Admitir que estamos decepcionados.
Às vezes, uma oração inteira pode começar com uma frase:
“Jesus, isto doeu.”
Sem uma explicação imediata.
Sem precisar acrescentar, no mesmo instante, uma conclusão que torne tudo mais aceitável.
Podemos deixar que a verdade encontre lugar.
Isso também nos ajuda a discernir o que fazer.
Uma tristeza reconhecida pode revelar uma despedida que ainda precisa ser vivida.
Uma irritação persistente pode nos levar a perceber cansaço, limites ultrapassados ou uma conversa adiada.
O medo pode mostrar uma necessidade de proteção, informação ou companhia.
Os sentimentos merecem escuta.
E aquilo que percebemos pode ser examinado com cuidado, porque sentir algo não nos oferece automaticamente uma compreensão completa da situação.
Podemos estar feridos e ainda precisar ouvir o outro.
Podemos sentir raiva e escolher palavras que não humilhem.
Podemos ter medo e buscar informações antes de decidir.
A sinceridade emocional abre espaço para esse discernimento.
Quando negamos o que sentimos, podemos acabar respondendo a partir de um lugar que nem reconhecemos.
Dizemos que não há problema, mas nos afastamos.
Afirmamos que está tudo resolvido, mas cada conversa traz uma nova cobrança.
Tentamos manter a calma e, em algum momento, reagimos de modo desproporcional.
Talvez uma verdade dita antes, com cuidado, ajudasse a abrir outro caminho.
“Preciso conversar sobre o que aconteceu.”
“Ainda estou magoado.”
“Hoje não consigo responder com a atenção necessária.”
“Preciso de ajuda para atravessar isso.”
Essas frases podem fazer parte de uma vida que busca a paz.
A paz pode acompanhar uma conversa honesta.
Pode sustentar um limite.
Pode dar espaço para pedir perdão ou reconhecer que a confiança precisará de tempo para ser reconstruída.
Também pode estar presente no luto, enquanto sentimos falta de alguém.
Há dores que não desaparecem porque encontramos palavras para elas.
Mas podemos deixar de atravessá-las completamente sozinhos.
Cristo nos recebe na oração.
E podemos procurar pessoas capazes de oferecer escuta respeitosa, companhia e ajuda.
Você não precisa contar tudo a todos.
Pode começar com alguém de confiança.
Talvez dizendo apenas:
“Não estou tão bem quanto pareço. Podemos conversar?”
Essa pequena abertura pode permitir que um cuidado necessário chegue.
Ao mesmo tempo, é possível que, mesmo depois de falar, você continue sem sentir alívio.
Não transforme isso em mais uma cobrança.
A verdade emocional precisa de tempo para ser acolhida e compreendida.
Há sentimentos que retornam.
Há experiências que pedem acompanhamento.
Há dias em que conseguimos falar mais e outros em que precisamos apenas de presença.
Podemos continuar buscando Cristo dentro desse processo.
Ontem, trouxemos a Ele os pensamentos que não conseguem parar.
Hoje, podemos trazer também aquilo que temos tentado disfarçar.
Talvez a oração seja simples:
“Senhor, esta é a verdade do meu coração hoje.”
E então permanecer.
Com a tristeza.
Com a gratidão.
Com a mágoa que precisa de cuidado.
Com a esperança que ainda está pequena.
A paz de Cristo pode nos acompanhar nesse encontro sincero.
Não precisamos chamar de leve aquilo que pesa para permitir que Ele se aproxime.
Perceba como você costuma responder quando lhe perguntam se está tudo bem.
Existe algum sentimento que você tem dificuldade de reconhecer, mesmo em oração?
Permaneça alguns instantes diante de Jesus e pergunte:
O que preciso admitir com sinceridade para começar a receber cuidado?
Talvez seja suficiente completar:
“Jesus, a verdade é que estou…”
Não procure uma resposta bonita.
Diga o que conseguir reconhecer e considere com quem poderia compartilhar essa necessidade.
Senhor Jesus,
Tu conheces o que aparece e o que tenho guardado.
As palavras que digo.
O sorriso com que continuo o dia.
E os sentimentos que ainda não encontrei coragem de apresentar.
Hoje quero estar diante de Ti com sinceridade.
Há coisas que doeram.
Preocupações que permanecem.
E momentos em que tento parecer tranquilo porque não sei como falar sobre tudo isso.
Ajuda-me a reconhecer o que sinto sem me condenar.
A encontrar palavras.
A escutar meu coração com cuidado.
E a discernir como responder ao que está acontecendo.
Se houver uma conversa necessária, dá-me coragem e respeito.
Se eu precisar estabelecer um limite, ajuda-me a fazê-lo com clareza.
Se estiver atravessando uma perda, acompanha-me no tempo do luto.
E, quando precisar de companhia, ensina-me a pedir.
Quero receber Tua paz dentro da minha vida real.
Com aquilo que compreendo e com o que ainda está confuso.
Senhor, aqui está meu coração como está hoje.
Permanece comigo e ajuda-me a acolher o cuidado de que preciso.
Amém.
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