Existe um tipo de bem que parece precisar ser contado.
Ajudamos alguém.
E sentimos vontade de mencionar.
Servimos.
E esperamos que percebam.
Fazemos algo generoso.
E quase imediatamente surge o desejo de tornar aquilo conhecido.
Nem sempre existe maldade nisso.
Às vezes, apenas queremos compartilhar.
Em outras vezes, porém, existe uma necessidade mais silenciosa.
Queremos ser vistos como pessoas boas.
Generosas.
Disponíveis.
Espirituais.
Queremos que os outros conheçam nossas intenções.
Que percebam nosso esforço.
Que reconheçam aquilo que fazemos.
Sem perceber, a boa obra começa a dividir espaço com a necessidade de construir uma imagem.
Jesus nos convida para outro caminho.
Um caminho em que o bem pode existir sem precisar de anúncio.
A Palavra nos orienta:
“Tenham cuidado! Não pratiquem boas obras em público somente para serem vistos pelos outros.”
(Mateus 6:1)
Jesus não condenava as boas obras feitas diante das pessoas.
Ele mesmo ensinou que nossas boas obras podem levar outros a glorificar o Pai.
O que Ele confrontava era a motivação.
Fazer o bem para parecer bom.
Servir para ser admirado.
Dar para construir reputação.
Orar para impressionar.
Quando a aprovação das pessoas se torna a razão do gesto, aquilo que parecia generosidade começa a alimentar o ego.
Por isso, algumas coisas precisam permanecer apenas entre nós e Deus.
Um cuidado que ninguém saberá.
Uma ajuda sem assinatura.
Uma oração feita em secreto.
Um gesto que não produzirá nenhuma história para contar.
Existe liberdade nesse lugar.
Porque o bem já não precisa provar nada.
Ele simplesmente pode ser oferecido.
Vivemos em um tempo em que quase tudo pode ser mostrado.
O que fazemos.
Onde estamos.
Quem ajudamos.
O que pensamos.
As causas que apoiamos.
As experiências que vivemos.
Compartilhar não é necessariamente errado.
Há testemunhos que encorajam.
Há boas iniciativas que precisam ser divulgadas para mobilizar outras pessoas.
Há ações coletivas que exigem transparência.
O problema não está simplesmente em tornar algo público.
Está no lugar que a visibilidade ocupa dentro do coração.
Se ninguém soubesse, eu ainda faria?
Essa pergunta alcança a motivação.
Porque existe uma diferença entre comunicar o bem e precisar ser reconhecido por ele.
Podemos servir alguém e depois perceber uma inquietação:
“Será que notaram?”
“Será que vão comentar?”
“Será que meu nome será lembrado?”
E, quando isso não acontece, o gesto começa a perder valor aos nossos próprios olhos.
É aí que o coração revela sua dependência.
Talvez não estivéssemos buscando apenas ajudar.
Também buscávamos confirmação.
Queríamos que o bem dissesse algo sobre nós.
“Sou generoso.”
“Sou dedicado.”
“Sou alguém em quem podem confiar.”
“Sou espiritual.”
Cristo nos liberta dessa necessidade.
Porque nossa identidade não precisa ser construída pelas boas obras.
Ela já está firmada no amor de Deus.
Não precisamos servir para provar que somos valiosos.
Não precisamos ajudar para conquistar uma imagem.
Não precisamos transformar cada atitude em testemunho sobre nós mesmos.
Podemos deixar o bem apontar para Deus.
E, em alguns casos, nem isso precisará ser verbalizado.
Basta fazer.
Existe maturidade espiritual quando conseguimos realizar algo bom e resistir à necessidade de contar.
Quando alguém agradece, recebemos com simplicidade.
Quando ninguém percebe, seguimos em paz.
Quando outra pessoa recebe o crédito, não precisamos disputar.
Quando nosso nome não aparece, o coração continua tranquilo.
Isso não acontece automaticamente.
O desejo de reconhecimento pode ser muito sutil.
Às vezes, não anunciamos o gesto, mas esperamos que alguém descubra.
Não contamos diretamente, mas deixamos pistas.
Não buscamos elogio de forma explícita, mas ficamos frustrados quando ele não chega.
O coração sabe criar caminhos discretos para buscar o centro.
Por isso, o serviço em secreto se torna uma escola.
Ele revela nossas motivações.
E nos ensina a viver diante do olhar de Deus.
Há algo profundamente transformador em fazer um bem que ninguém saberá que veio de nós.
Ajudar sem assinar.
Orar sem contar que estamos orando.
Resolver algo sem anunciar que fomos responsáveis.
Dar sem transformar a oferta em instrumento de influência.
Esses gestos treinam nosso interior.
Eles diminuem a necessidade de ocupar o centro.
Mas servir em secreto não significa esconder tudo.
Existem situações em que transparência é necessária.
Prestação de contas.
Responsabilidade.
Comunicação clara.
Trabalho em equipe.
O anonimato não deve ser usado para fugir dessas responsabilidades.
O ensino de Jesus não é sobre ocultação.
É sobre motivação.
A pergunta não é:
“Alguém pode saber?”
Mas:
“Eu preciso que saibam para que esse gesto tenha valor para mim?”
Essa diferença é importante.
Talvez você esteja envolvido em algo que naturalmente será visto.
Seu trabalho.
Uma liderança.
Um serviço público.
Uma responsabilidade na comunidade.
Não há problema em ser percebido.
A questão é o que fazemos com essa visibilidade.
Podemos recebê-la sem nos alimentar dela.
Podemos reconhecer:
“Isso não é sobre mim.”
Podemos compartilhar méritos.
Valorizar quem trabalhou conosco.
Evitar construir uma imagem maior do que a realidade.
A humildade não exige que neguemos aquilo que fizemos.
Mas impede que façamos disso nossa identidade.
Jesus servia de maneira visível.
Multidões o viam.
Mas Ele nunca transformou o serviço em espetáculo para aumentar sua própria importância.
Em muitos momentos, inclusive, afastou-se quando as pessoas queriam transformá-lo em centro de uma admiração que distorceria sua missão.
Sua vida estava voltada para o Pai.
Esse é o movimento que precisamos aprender.
Fazer o bem a partir da comunhão com Deus.
E entregar a Ele o resultado.
Talvez ninguém veja.
Talvez vejam.
Talvez agradeçam.
Talvez não.
Talvez seu gesto produza fruto.
Talvez você nunca saiba.
Ainda assim, podemos permanecer fiéis.
Porque o valor do bem não nasce da plateia.
Nasce do amor.
E o amor não precisa ser anunciado para ser verdadeiro.
Pense em alguma boa obra que você realizou recentemente.
Uma ajuda.
Um serviço.
Uma oferta.
Um cuidado.
Observe o que aconteceu dentro de você depois.
Você sentiu necessidade de contar?
Ficou esperando reconhecimento?
Sentiu frustração porque ninguém percebeu?
Desejou que alguém soubesse quanto esforço houve?
Não se condene.
Apenas leve essa necessidade a Cristo.
Eu faria este mesmo bem se ninguém jamais soubesse que fui eu?
Permaneça alguns instantes em silêncio.
Talvez hoje você possa escolher um gesto que fique apenas entre você e Deus.
Senhor,
Tu conheces meu coração.
Conheces as boas coisas que faço.
Mas também conheces as motivações escondidas.
As vezes em que desejo ser visto.
Reconhecido.
Elogiado.
Lembrado.
Cristo, liberta-me da necessidade de transformar o bem em vitrine.
Não quero servir para construir uma imagem.
Nem ajudar para parecer melhor.
Ensina-me a fazer o bem com simplicidade.
A deixar alguns gestos apenas entre mim e Ti.
A receber o reconhecimento quando ele vier sem depender dele.
E a permanecer em paz quando ninguém perceber.
Guarda meu coração da comparação.
Da vaidade.
Da necessidade de ocupar o centro.
Quando meu serviço for visível, dá-me humildade.
Quando for escondido, dá-me contentamento.
Que minhas boas obras não apontem primeiro para mim.
Que expressem o amor que recebi de Ti.
E que o Teu olhar seja suficiente para sustentar meu coração.
Amém.
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