É mais fácil pensar no amor de maneira distante.
Amar a humanidade.
Desejar o bem do mundo.
Defender grandes causas.
Comover-se com histórias que acontecem longe.
Tudo isso pode ser sincero.
Mas o amor ensinado por Jesus sempre encontra um rosto.
Uma pessoa concreta.
Uma necessidade real.
Alguém que está perto.
O próximo pode estar dentro da nossa casa.
No ambiente de trabalho.
Na mesa ao lado.
Na fila.
Na comunidade.
Na mensagem que ainda não respondemos.
Pode ser alguém de quem gostamos.
Mas também pode ser uma pessoa que interrompe nossos planos.
Que exige paciência.
Que não faz parte do nosso círculo.
Que pensa de outra maneira.
Que talvez nunca consiga retribuir o cuidado recebido.
Na parábola do bom samaritano, Jesus falou de um homem ferido à beira do caminho.
Algumas pessoas o viram.
Mas continuaram andando.
Talvez estivessem ocupadas.
Talvez tivessem compromissos importantes.
Talvez tenham pensado que o problema não lhes pertencia.
O samaritano também tinha um caminho a seguir.
Mas permitiu que a dor do outro interrompesse sua passagem.
Ele viu.
Aproximou-se.
Cuidou.
Usou o que tinha.
E assumiu uma responsabilidade possível.
Ao final, Jesus perguntou quem havia se tornado próximo do homem ferido.
A resposta foi simples:
“O professor da lei então respondeu: ‘Aquele que socorreu o homem’. Jesus lhe disse: ‘Vá e faça a mesma coisa’.”
(Lucas 10:37)
O próximo não foi definido apenas pela proximidade física.
Foi revelado pela misericórdia.
A pergunta deixou de ser:
“Quem merece o meu cuidado?”
E passou a ser:
“De quem posso me aproximar?”
Essa mudança alcança nossa vida diária.
Porque talvez estejamos esperando uma grande oportunidade para amar.
Enquanto isso, alguém perto de nós precisa apenas ser percebido.
Vivemos cercados de pessoas.
Mas proximidade não significa necessariamente atenção.
Podemos dividir a mesma casa e não perceber o cansaço de alguém.
Trabalhar todos os dias com uma pessoa e nunca perguntar como ela realmente está.
Participar da mesma comunidade e não notar quem permanece sozinho.
Conversar por mensagens e ainda assim não oferecer presença.
A pressa diminui nossa capacidade de enxergar.
Ficamos concentrados nos compromissos.
Nas tarefas.
Nos problemas que precisamos resolver.
Naquilo que ainda falta.
Então as pessoas passam a fazer parte do cenário.
Nós as vemos.
Mas não nos aproximamos.
Foi isso que aconteceu no caminho narrado por Jesus.
O sacerdote viu o homem ferido.
O levita também viu.
O problema não foi falta de visão.
Foi falta de aproximação.
Eles perceberam a existência da dor.
Mas decidiram que ela não interromperia seus caminhos.
O samaritano fez algo diferente.
Ele permitiu que aquilo que viu chegasse ao coração.
Teve compaixão.
E a compaixão o fez chegar perto.
Esse movimento é importante.
O amor começa quando deixamos de observar a vida do outro apenas à distância.
Talvez não consigamos resolver tudo.
Talvez não tenhamos todas as respostas.
Mas podemos chegar perto.
Ouvir.
Perguntar.
Oferecer o que está ao nosso alcance.
Muitas vezes, imaginamos que amar exige grandes recursos.
Mas o samaritano começou com aquilo que tinha.
Seu tempo.
Seus materiais.
Seu meio de transporte.
Sua disposição.
Nem sempre poderemos oferecer muito.
Mas podemos oferecer algo.
Uma conversa sem pressa.
Uma palavra de encorajamento.
Ajuda em uma tarefa.
Uma refeição.
Uma ligação.
Uma presença silenciosa.
Uma atenção que comunica:
“Você não está invisível para mim.”
O próximo que Deus colocou perto nem sempre chegará de forma conveniente.
Talvez apareça quando já estamos cansados.
Quando nossa agenda está cheia.
Quando desejávamos apenas terminar o dia.
É fácil amar quando o amor não altera nossos planos.
Mais difícil é permitir que a necessidade de alguém nos desloque.
Isso não significa dizer sim a tudo.
Não significa assumir todos os problemas.
Nem viver sem limites.
Não somos capazes de atender todas as necessidades que encontramos.
Jesus também não respondeu a todas as demandas da mesma maneira.
Precisamos de discernimento.
Mas discernimento não deve se tornar desculpa para a indiferença.
Há uma diferença entre reconhecer nossos limites e usar a falta de tempo para nunca nos envolvermos.
Podemos perguntar:
“Há algo que realmente posso fazer aqui?”
Talvez a resposta seja pequena.
Talvez não sejamos a pessoa que resolverá a situação.
Mas podemos ser aquela que escutará.
Que indicará ajuda.
Que oferecerá um primeiro cuidado.
Que não passará fingindo que não viu.
Também existe o risco de procurarmos pessoas distantes para amar enquanto negligenciamos quem está perto.
Podemos ser gentis em público e impacientes em casa.
Atenciosos com desconhecidos e indiferentes com a família.
Disponíveis para grandes projetos e ausentes nas pequenas necessidades de quem convive conosco.
O amor cristão começa perto.
No tom de voz que usamos.
Na forma como respondemos às perguntas repetidas.
Na atenção oferecida durante uma conversa.
Na disposição de dividir uma responsabilidade.
No cuidado com alguém que está cansado.
Talvez o próximo de hoje seja alguém com quem você já convive há muitos anos.
Alguém tão presente que se tornou fácil não perceber.
Uma pessoa que tem servido silenciosamente.
Que tem carregado mais do que demonstra.
Que talvez não precise de uma grande solução.
Apenas de reconhecimento.
De gratidão.
De descanso.
De sentir que não está sozinha.
Mas o próximo também pode ser alguém que não escolheríamos.
A parábola de Jesus envolvia um samaritano e um judeu.
Pessoas pertencentes a grupos marcados por distância e hostilidade.
Jesus mostrou que a misericórdia atravessa fronteiras.
O próximo não é apenas quem pensa como nós.
Quem pertence ao nosso grupo.
Quem compartilha nossas preferências.
Quem consegue nos retribuir.
Amar o próximo significa permitir que a dignidade seja maior do que as diferenças.
Talvez a pessoa diante de nós tenha outra história.
Outra visão.
Outro modo de viver.
Podemos discordar.
Estabelecer limites.
Manter nossas convicções.
E ainda assim reconhecer sua humanidade.
Ainda podemos tratar com respeito.
Oferecer ajuda diante de uma necessidade.
Recusar a indiferença.
A fé cristã não nos ensina a perguntar primeiro a qual grupo a pessoa pertence.
Ensina-nos a enxergar alguém por quem Cristo também se importa.
Isso não acontece apenas em situações extraordinárias.
A oportunidade de amar costuma chegar disfarçada de cotidiano.
Uma pessoa que precisa falar.
Um colega que está tendo dificuldade.
Um familiar sobrecarregado.
Alguém novo que não conhece ninguém.
Uma pessoa idosa que precisa de ajuda.
Um pedido simples que podemos atender.
Talvez esperemos sentir algo forte antes de agir.
Mas o samaritano não permaneceu apenas comovido.
A compaixão tornou-se movimento.
Ele chegou perto.
Cuidou das feridas.
Levou o homem a um lugar seguro.
O amor se torna real quando encontra uma forma de agir.
Não basta perceber.
É preciso perguntar:
“O que posso fazer com aquilo que vi?”
Talvez você não consiga resolver o problema de alguém.
Mas pode não aumentar sua dor.
Pode tratar essa pessoa com dignidade.
Pode deixar de fazer um julgamento precipitado.
Pode evitar uma palavra que agravaria a ferida.
Pode oferecer um pouco do seu tempo.
Pode orar com ela.
Pode ajudá-la a encontrar o auxílio de que necessita.
O amor nem sempre será a solução completa.
Às vezes, será o primeiro sinal de que ainda existe esperança.
Também precisamos vigiar para não transformar o cuidado em superioridade.
O samaritano não ajudou para provar que era melhor.
Ele não fez um discurso sobre o estado do homem.
Não perguntou como ele tinha chegado até ali antes de cuidar de suas feridas.
A misericórdia não começa com acusação.
Começa com aproximação.
Há momentos para orientar.
Corrigir.
Conversar sobre escolhas.
Mas uma pessoa ferida nem sempre precisa primeiro de uma explicação sobre o que fez de errado.
Precisa ser cuidada.
Cristo nos ensina a reconhecer o momento.
Nem toda dor precisa imediatamente de um conselho.
Algumas precisam de silêncio.
Presença.
Acolhimento.
O próximo que Deus colocou perto não é um projeto.
Não existe para que nos sintamos espiritualmente melhores.
É uma pessoa.
Com dignidade.
Com limites.
Com uma história que talvez nunca conheçamos inteiramente.
Por isso, o amor não invade.
Ele se aproxima com respeito.
Pergunta como pode ajudar.
Escuta.
Oferece.
Não transforma a vulnerabilidade do outro em espetáculo.
Não divulga o cuidado para receber aplausos.
Não usa a fragilidade de alguém para aumentar a própria importância.
O verdadeiro amor preserva.
Talvez você tenha pedido a Deus uma oportunidade de servir.
Ela pode já estar diante de você.
Não em uma missão distante.
Mas em uma pessoa próxima.
Em uma necessidade pequena.
Em uma interrupção que você preferiria evitar.
Em alguém que não está pedindo perfeição.
Apenas presença.
O próximo não é somente encontrado.
Muitas vezes, nós nos tornamos próximos quando decidimos chegar perto.
Quando permitimos que a misericórdia interrompa a indiferença.
Quando transformamos atenção em cuidado.
Talvez hoje Cristo esteja lhe perguntando:
“Quem você tem visto, mas ainda não percebeu?”
A resposta pode estar mais perto do que você imagina.
Observe as pessoas que fazem parte do seu dia.
Quem está perto de você?
Em casa.
No trabalho.
Na comunidade.
Nos lugares por onde você passa.
Existe alguém cujo cansaço você não tem percebido?
Alguém que parece mais silencioso?
Alguém novo, sozinho ou sobrecarregado?
Alguém que você vê com frequência, mas raramente escuta?
Não tente assumir todos os problemas.
Peça apenas que Cristo torne seu coração atento.
Quem é o próximo de quem posso me aproximar hoje?
Talvez você possa ouvir.
Perguntar como a pessoa está.
Ajudar em uma tarefa.
Oferecer uma palavra.
Dividir uma responsabilidade.
Ou simplesmente demonstrar que ela não passou despercebida.
Senhor,
abre os meus olhos para as pessoas que colocaste perto de mim.
Não permitas que a pressa me torne indiferente.
Que as tarefas ocupem tanto meu coração que eu deixe de perceber quem precisa de cuidado.
Ensina-me a olhar além de mim mesmo.
A notar o cansaço.
O silêncio.
A solidão.
As pequenas necessidades que surgem no caminho.
Cristo, dá-me compaixão para chegar perto.
Sabedoria para reconhecer o que posso fazer.
E humildade para aceitar aquilo que está além das minhas forças.
Não quero usar meus limites como desculpa para nunca ajudar.
Mas também não quero assumir um lugar que não me pertence.
Mostra-me o cuidado possível.
A palavra necessária.
A escuta que posso oferecer.
O gesto simples que pode tornar o dia de alguém menos pesado.
Ajuda-me a amar quem está dentro da minha casa.
Quem trabalha ao meu lado.
Quem participa da minha rotina.
Quem se tornou tão próximo que deixei de perceber.
Ensina-me também a atravessar as fronteiras que criei.
A reconhecer dignidade em quem é diferente de mim.
A não perguntar primeiro quem merece.
Mas como posso agir com misericórdia.
Que meu amor não permaneça apenas na intenção.
Que ele se torne aproximação.
Presença.
Cuidado.
E serviço.
Senhor, faz de mim um próximo para alguém hoje.
Amém.
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