Há conversas em que começamos a nos defender antes mesmo de compreender o que o outro está tentando dizer.
Enquanto a pessoa fala, já organizamos argumentos.
Procuramos explicações.
Selecionamos lembranças que sustentem nossa versão.
Esperamos apenas uma pequena pausa para responder.
Estamos presentes.
Mas não estamos realmente ouvindo.
Isso acontece especialmente quando nos sentimos acusados.
Uma crítica parece ameaça.
Uma observação desperta desconforto.
Uma percepção diferente da nossa produz imediatamente a necessidade de explicar:
“Não foi isso que aconteceu.”
“Você entendeu errado.”
“Eu fiz isso porque...”
Talvez exista algo que realmente precise ser esclarecido.
Mas, antes da resposta, pode existir um gesto de amor ainda mais importante:
escutar.
A Palavra nos orienta:
“Todos devem estar prontos para ouvir, mas devem demorar para falar e para ficar irados.”
(Tiago 1:19)
Tiago não apresenta a escuta como simples habilidade de comunicação.
Ela faz parte de uma postura espiritual.
Ouvir exige humildade.
Porque, durante alguns instantes, deixamos de controlar a conversa.
Permitimos que a experiência do outro ocupe espaço.
E talvez descubramos que há algo que ainda não tínhamos percebido.
Ouvir antes de se defender não significa concordar com tudo.
Significa amar o suficiente para compreender antes de responder.
Quando alguém nos diz que foi ferido por alguma atitude nossa, uma reação quase automática é olhar para a intenção.
“Mas eu não queria machucar.”
Essa informação importa.
Nossas intenções fazem parte da história.
Mas elas não são a história inteira.
A outra pessoa experimentou também o impacto.
Podemos ter tido uma boa intenção e ainda assim produzido uma dor.
Ouvir nos permite entrar, ainda que parcialmente, nessa outra perspectiva.
Podemos perguntar:
“Como você viveu aquilo?”
“O que minhas palavras produziram em você?”
“Há algo que eu não percebi?”
Essas perguntas não nos tornam culpados por tudo.
Apenas nos tornam disponíveis para compreender.
A defesa imediata costuma fechar essa porta.
Quando respondemos a cada frase com uma explicação, a pessoa pode sentir que sua experiência está sendo negada.
Ela diz:
“Aquilo me feriu.”
Nós respondemos:
“Mas não era minha intenção.”
Talvez as duas frases sejam verdadeiras.
O problema é quando usamos a segunda para apagar a primeira.
A humildade consegue sustentar ambas:
“Eu não queria ferir você.”
E:
“Mas reconheço que isso aconteceu.”
Essa maturidade pode transformar relações.
Ouvir também significa resistir à necessidade de corrigir cada detalhe enquanto alguém tenta expressar algo importante.
Talvez a pessoa não conte os fatos exatamente como lembraríamos.
Talvez use uma palavra exagerada.
Talvez exista algo que precisaremos esclarecer depois.
Mas, se interrompemos constantemente para corrigir pequenas imprecisões, podemos perder o sentido mais profundo da conversa.
Às vezes, existe uma dor tentando encontrar palavras.
E a escuta precisa primeiro alcançar a dor.
Depois haverá espaço para organizar os detalhes.
Isso não significa aceitar acusações injustas em silêncio.
Nem concordar com interpretações que sabemos não serem verdadeiras.
Ouvir não é submissão.
É presença.
Podemos escutar até o fim e depois dizer:
“Eu compreendo melhor como você se sentiu. Posso também explicar como enxerguei aquela situação?”
Essa sequência muda o tom.
A defesa deixa de ser reflexo.
Torna-se resposta.
Existe muita força nisso.
A mansidão não reage apenas para aliviar o próprio desconforto.
Ela suporta alguns minutos de vulnerabilidade.
Talvez ouvir algo sobre nós mesmos seja difícil.
Podemos descobrir uma impaciência que não percebíamos.
Uma ausência.
Uma forma dura de falar.
Uma tendência de controlar.
A primeira reação pode ser negar.
Mas uma identidade segura em Cristo não precisa fugir de toda crítica.
Podemos perguntar:
“Existe algo aqui que Deus quer me mostrar?”
Nem toda crítica será justa.
Mas algumas podem conter uma verdade que não conseguiríamos enxergar sozinhos.
A escuta humilde não entrega nossa identidade à opinião dos outros.
Mas também não fecha o coração para tudo aquilo que eles podem nos ensinar.
Isso vale para relacionamentos próximos.
No casamento.
Na família.
Nas amizades.
No trabalho.
Também vale quando alguém simplesmente precisa ser ouvido.
Nem toda conversa pede conselho.
Às vezes, a pessoa já sabe o que precisa fazer.
Ou ainda está tentando compreender o que sente.
Nossa pressa em oferecer respostas pode fazer com que o cuidado se transforme em interrupção.
Perguntar:
“Você quer minha opinião ou prefere que eu apenas escute?”
pode ser uma das formas mais simples de amor.
Ela comunica:
“Esta conversa não precisa girar ao redor daquilo que eu tenho para dizer.”
Escutar também exige presença.
É difícil ouvir quando estamos olhando continuamente para o telefone.
Pensando na próxima tarefa.
Respondendo mensagens.
Preparando mentalmente outro assunto.
Podemos estar fisicamente próximos e emocionalmente ausentes.
Por isso, às vezes, ouvir significa apenas parar.
Olhar.
Dar alguns minutos inteiros.
Talvez não possamos oferecer uma hora.
Mas podemos oferecer dez minutos verdadeiramente presentes.
Essa presença comunica dignidade.
Diz ao outro:
“O que você está dizendo merece atenção.”
Há também momentos em que ouvir antes de se defender evitará conflitos desnecessários.
Talvez percebamos que a pessoa não estava nos atacando.
Apenas estava tentando expressar uma necessidade.
Uma frase que inicialmente parecia acusação pode, depois de algumas perguntas, revelar cansaço.
Medo.
Solidão.
Frustração.
Quando respondemos apenas à superfície, reagimos à palavra.
Quando ouvimos, podemos encontrar aquilo que está por trás dela.
Cristo fazia isso.
Escutava perguntas que carregavam outras perguntas.
Percebia dores escondidas atrás de palavras.
Não tratava pessoas apenas pelo que diziam na superfície.
Enxergava o coração.
Não teremos a mesma percepção perfeita.
Mas podemos aprender a diminuir a pressa.
Antes de responder:
“Deixe-me entender.”
Essa pequena disposição já pode mudar muito.
Talvez o exercício da mansidão hoje não esteja em ficar calado durante uma provocação.
Mas em permanecer suficientemente seguro para ouvir algo desconfortável sem construir imediatamente uma muralha.
Ouvir não significa desaparecer.
Depois haverá espaço para nossa voz.
Nossa percepção.
Nossa verdade.
Mas talvez essa verdade seja recebida de outra maneira quando o outro percebe que também foi ouvido.
A reconciliação, a maturidade e até as conversas mais difíceis precisam dessa reciprocidade.
Não apenas duas pessoas esperando sua vez de falar.
Mas duas pessoas tentando realmente se encontrar.
Ouvir antes de se defender é um desses caminhos.
Pense em uma conversa na qual você costuma se sentir rapidamente acusado ou incompreendido.
O que acontece dentro de você quando o outro começa a falar?
Você escuta?
Ou imediatamente procura explicações?
Interrompe?
Corrige?
Prepara sua defesa?
O que posso compreender se, por alguns instantes, eu deixar de tentar me defender?
Na próxima conversa, experimente uma mudança simples.
Antes de responder, faça uma pergunta.
“Pode me explicar melhor?”
Talvez exista algo que você ainda não ouviu.
Senhor Jesus,
ensina-me a ouvir.
Muitas vezes tenho pressa de explicar.
De me defender.
De mostrar minha versão.
E, nessa pressa, deixo de perceber o coração de quem está diante de mim.
Dá-me humildade para escutar antes de responder.
Segurança para ouvir uma crítica sem sentir que todo o meu valor está sendo ameaçado.
Sabedoria para discernir o que é verdadeiro.
E mansidão para não transformar cada observação em uma batalha.
Quando eu estiver errado, ajuda-me a reconhecer.
Quando houver algo que precise ser esclarecido, ensina-me a falar com serenidade.
Quando alguém precisar apenas de presença, livra-me da necessidade de ter sempre uma resposta.
Que eu saiba fazer silêncio.
Perguntar.
Olhar com atenção.
E oferecer tempo verdadeiro.
Cristo, faz da minha escuta uma expressão de amor.
Que as pessoas não encontrem em mim apenas alguém pronto para falar.
Mas também alguém disposto a compreender.
Amém.
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