Há um espaço difícil entre a promessa e o cumprimento.
Entre a oração e a resposta.
Entre o chamado e a porta aberta.
Entre a direção recebida e o caminho concluído.
Entre o que Deus iniciou e aquilo que ainda não vemos terminado.
Esse espaço se chama intervalo.
E é nele que muita coisa se revela.
Revela-se a profundidade da confiança.
A qualidade da obediência.
A firmeza da esperança.
A maturidade da fé.
A disposição de continuar fazendo o bem mesmo quando nada parece mudar.
Permanecer fiel no intervalo é uma das expressões mais profundas da fé cristã.
Jesus disse:
“Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.”
(Evangelho de Lucas 16:10)
A fidelidade não começa apenas quando tudo se resolve.
Ela começa no pouco.
No escondido.
No repetido.
No dia comum.
No tempo em que ninguém aplaude.
No intervalo em que Deus ainda parece silencioso, mas continua presente.
O intervalo costuma ser um teste silencioso.
No início, há esperança.
Algo foi pedido.
Algo foi discernido.
Algo foi entregue.
Algo foi iniciado.
Algo foi prometido ao coração.
Mas, com o passar do tempo, a espera pode desgastar.
A empolgação diminui.
As perguntas aumentam.
A comparação aparece.
A ansiedade tenta ocupar espaço.
E a alma começa a perguntar se ainda vale a pena continuar fiel.
Vale a pena continuar orando?
Vale a pena continuar obedecendo?
Vale a pena continuar fazendo o certo?
Vale a pena permanecer íntegro quando o resultado ainda não apareceu?
Vale a pena servir, amar, plantar, esperar e confiar quando nada parece avançar?
É nesse ponto que o intervalo se torna lugar de formação.
Porque a fidelidade mais madura não depende apenas da recompensa visível.
Ela nasce de um amor que permanece.
Permanecer fiel no intervalo é continuar sendo quem Deus chamou você para ser, mesmo antes de ver o que Ele prometeu realizar.
É seguir obedecendo quando a emoção diminui.
É continuar praticando o bem quando ninguém reconhece.
É cuidar do que está em suas mãos enquanto aquilo que você deseja ainda não chegou.
É não abandonar o caminho apenas porque o tempo ficou mais longo do que você imaginava.
Muitas vezes, queremos pular o intervalo.
Queremos chegar logo ao cumprimento.
À resposta.
À colheita.
Ao alívio.
À clareza.
Mas Deus trabalha profundamente no meio do caminho.
Há coisas que só são formadas na continuidade.
A perseverança não nasce no começo.
Nasce quando continuar exige decisão.
A confiança não se aprofunda apenas quando tudo vai bem.
Aprofunda-se quando escolhemos descansar em Deus sem garantias imediatas.
A fidelidade não é provada apenas nas grandes declarações.
É revelada nas pequenas escolhas repetidas.
No modo como você trata as pessoas enquanto espera.
No cuidado com suas responsabilidades enquanto a porta maior não se abre.
Na integridade com que você lida com o pouco.
Na oração que continua, mesmo sem respostas rápidas.
Na esperança que não se transforma em amargura.
Na obediência que não depende de aplauso.
O intervalo também revela tentações.
A tentação de desistir.
De atalhar o processo.
De manipular resultados.
De comparar sua vida com a de outros.
De endurecer o coração.
De interpretar a demora como prova de que Deus não se importa.
De abandonar práticas espirituais porque a resposta ainda não veio.
Mas Cristo nos chama a permanecer.
Permanecer não é ficar parado por medo.
É continuar fiel no que já foi revelado enquanto aguardamos o que ainda não foi esclarecido.
Há momentos em que não sabemos o próximo capítulo.
Mas sabemos o próximo passo.
Orar.
Perdoar.
Trabalhar com integridade.
Cuidar do que Deus confiou.
Amar com verdade.
Servir sem perder a alma.
Guardar o coração.
Esperar sem abandonar a esperança.
O intervalo pode parecer pequeno aos olhos de quem vê de fora.
Mas, para quem vive, ele pode ser longo, cansativo e exigente.
Deus sabe disso.
Ele conhece o peso da espera.
Conhece os dias em que você continua, mesmo cansado.
Conhece as orações que já não têm muitas palavras.
Conhece a fidelidade que ninguém vê.
Conhece as pequenas renúncias feitas no silêncio.
Conhece o esforço de permanecer com o coração limpo enquanto tudo parece indefinido.
E nada disso é invisível para Ele.
A fidelidade no intervalo não é desperdiçada.
Mesmo quando não produz resultados imediatos, ela forma raízes.
Raízes de caráter.
Raízes de confiança.
Raízes de perseverança.
Raízes de maturidade.
Raízes de amor por Deus acima das circunstâncias.
Talvez hoje você esteja vivendo um intervalo.
Você já saiu de um lugar, mas ainda não chegou ao outro.
Já orou, mas ainda não recebeu a resposta.
Já obedeceu, mas ainda não viu fruto.
Já entregou, mas ainda sente o peso da espera.
Nesse lugar, Cristo não pede que você finja força.
Ele convida você a permanecer Nele.
A fidelidade cristã não é sustentada apenas pela nossa disciplina.
Ela é sustentada pela graça.
Permanecemos porque Cristo permanece conosco.
Continuamos porque Ele nos fortalece.
Esperamos porque Ele nos lembra que o Pai não perdeu o controle da história.
O intervalo não é terra sem Deus.
É lugar onde Deus também trabalha.
Ainda que em silêncio.
Ainda que de forma invisível.
Ainda que de modo diferente do que esperávamos.
Permanecer fiel no intervalo é dizer com a vida:
“Senhor, eu ainda confio.”
“Eu ainda pertenço a Ti.”
“Eu ainda escolho o caminho da obediência.”
“Eu ainda creio que o Teu tempo não é ausência de cuidado.”
E essa fidelidade, mesmo silenciosa, é preciosa diante de Deus.
Hoje, pense em uma área da sua vida em que você está vivendo um intervalo entre o que espera e o que ainda não aconteceu.
Qual é a pequena fidelidade que Cristo me chama a viver hoje, enquanto a resposta ainda não chegou?
Observe com simplicidade.
Há uma responsabilidade a cumprir?
Há uma oração a retomar?
Há uma atitude de integridade a preservar?
Há uma comparação a abandonar?
Há um bem possível a fazer?
Há uma esperança a proteger?
Não tente resolver todo o futuro.
Apenas permaneça fiel no passo de hoje.
Senhor,
eu Te entrego os intervalos da minha vida.
Entrego o espaço entre a oração e a resposta.
Entre a promessa e o cumprimento.
Entre o início e a conclusão.
Entre o que eu já obedeci e o que ainda não vi florescer.
Cristo, sustenta minha fidelidade nesse tempo.
Ajuda-me a não desistir por causa da demora.
A não procurar atalhos movido pela ansiedade.
A não comparar meu processo com o tempo dos outros.
A não abandonar o bem apenas porque ainda não vejo fruto.
Ensina-me a ser fiel no pouco.
No escondido.
No repetido.
No simples.
No dia comum.
No passo possível de hoje.
Senhor, guarda meu coração da amargura.
Guarda minha esperança do cansaço.
Guarda minha obediência da pressa.
Guarda minha fé das conclusões precipitadas.
Que eu continue orando.
Continue amando.
Continue servindo.
Continue trabalhando com integridade.
Continue escolhendo o caminho de Cristo.
Mesmo quando tudo parece lento.
Mesmo quando ninguém vê.
Mesmo quando a resposta ainda não chegou.
Lembra-me de que o intervalo também pertence a Ti.
Que Tu trabalhas no silêncio.
Que Tu formas raízes antes dos frutos.
Que Tu permaneces comigo enquanto eu aprendo a permanecer fiel.
E que, no tempo certo, minha espera não terá sido em vão diante de Ti.
Amém.
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