Nem toda discussão começa por causa da verdade.
Às vezes, começa por algo muito mais silencioso:
a necessidade de estar acima.
Queremos ser compreendidos.
Mas, em determinado momento, já não basta que o outro nos compreenda.
Precisamos que reconheça que estamos certos.
Que admita que sabemos mais.
Que aceite nossa interpretação.
Que perceba que nosso argumento venceu.
A conversa continua.
Mas o objetivo mudou.
Já não estamos tentando construir entendimento.
Estamos tentando proteger uma posição.
Os discípulos de Jesus também conheceram esse movimento.
Mesmo caminhando perto Dele, discutiram sobre quem deveria ser considerado o maior.
Jesus respondeu invertendo completamente a lógica da grandeza:
“Eu estou entre vocês como aquele que serve.”
(Lucas 22:27)
Enquanto os discípulos discutiam posições, Jesus apontava para o serviço.
Enquanto perguntavam quem era maior, Cristo mostrava que no Reino a verdadeira grandeza não precisa ocupar o lugar mais alto.
O ego pergunta:
“Quem está acima?”
O amor pergunta:
“Como posso servir à verdade e à pessoa que está diante de mim?”
Essa mudança transforma uma conversa.
O ego raramente anuncia sua chegada.
Ele não diz:
“Agora quero me sentir superior.”
Costuma aparecer de maneira mais discreta.
Na interrupção constante.
Na dificuldade de admitir:
“Não sei.”
Na necessidade de corrigir cada detalhe.
Na vontade de ter sempre uma resposta.
No prazer escondido de mostrar que o outro estava errado.
Até uma conversa aparentemente espiritual pode se tornar território para o ego.
Podemos conhecer mais textos.
Ter mais experiência.
Possuir melhores argumentos.
E usar tudo isso não para ajudar, mas para ocupar uma posição acima.
Por isso, uma pergunta importante durante uma conversa é:
“O que estou tentando fazer aqui?”
Quero compreender?
Ou vencer?
Quero esclarecer?
Ou impressionar?
Quero contribuir?
Ou provar que sei mais?
Essas perguntas podem revelar movimentos que o conteúdo da conversa não mostra.
Porque podemos dizer coisas verdadeiras por motivos pouco amorosos.
É possível corrigir alguém não porque desejamos seu crescimento, mas porque gostamos de ocupar o lugar de quem sabe.
É possível oferecer conselho antes mesmo de escutar porque acreditamos que já compreendemos tudo.
É possível transformar conhecimento em instrumento de superioridade.
A humildade faz o movimento contrário.
Ela consegue escutar.
Não porque não tenha o que dizer.
Mas porque reconhece que o outro também possui algo a revelar.
Tiago nos orienta:
“Todos devem estar prontos para ouvir, mas devem demorar para falar.”
(Tiago 1:19)
Escutar é uma disciplina do ego.
Enquanto ouvimos verdadeiramente, abrimos mão temporariamente do centro.
Permitimos que outra história ocupe espaço.
Talvez descubramos que interpretamos algo errado.
Que não conhecíamos todos os fatos.
Que nossa conclusão foi rápida demais.
E isso exige humildade.
O ego teme essas descobertas porque construiu sua segurança sobre estar certo.
Mas quem está seguro em Cristo pode aprender sem se sentir diminuído.
Pode dizer:
“Eu não tinha pensado dessa maneira.”
“Você tem razão nesse ponto.”
“Preciso reconsiderar.”
“Não tenho certeza.”
Essas frases não enfraquecem uma pessoa.
Revelam liberdade.
Também existe ego quando precisamos oferecer nossa opinião sobre tudo.
Nem toda situação exige nosso comentário.
Nem toda decisão precisa de nossa avaliação.
Nem toda conversa precisa terminar com nossa síntese.
Há momentos em que presença é mais importante do que opinião.
Alguém pode estar contando uma dor e nós imediatamente procuramos solução.
Explicamos.
Interpretamos.
Aconselhamos.
Mas talvez a pessoa ainda nem tenha terminado de falar.
Às vezes, o ego gosta do lugar de quem resolve.
A humildade consegue permanecer no lugar de quem acompanha.
Pergunta:
“Você quer minha opinião ou precisa apenas ser ouvido?”
Essa pequena pergunta muda o ambiente inteiro.
Ela reconhece que servir não é impor aquilo que temos a oferecer.
É perceber aquilo de que o outro realmente precisa.
O ego também aparece quando uma discordância começa a ameaçar nosso valor.
Então elevamos o tom.
Repetimos o argumento de outra maneira.
Buscamos aliados.
Tentamos demonstrar inconsistências do outro.
Já não importa apenas o assunto.
Importa não sair da conversa parecendo menor.
Mas Cristo nos liberta dessa disputa.
Não somos maiores porque vencemos.
Nem menores porque alguém apresentou um argumento melhor.
Nosso valor não está em jogo em cada conversa.
Essa segurança nos permite permanecer manso.
Podemos defender uma convicção com firmeza e ainda respeitar quem discorda.
Podemos reconhecer nossa razão sem transformar a razão em superioridade.
Podemos reconhecer o erro sem perder dignidade.
Também precisamos perceber quando a conversa deixou de produzir fruto.
Há discussões que continuam apenas porque nenhum dos lados quer parar primeiro.
A última palavra se transforma em troféu.
Mas humildade também é saber encerrar.
Dizer:
“Talvez seja melhor continuarmos em outro momento.”
Ou:
“Parece que já compreendemos nossas posições, mesmo sem concordar.”
Nem toda conversa precisa terminar com alguém vencendo.
Algumas podem simplesmente terminar com duas pessoas que continuam diferentes e ainda assim preservam respeito.
Isso exige uma força que o ego desconhece.
A força de não precisar demonstrar superioridade.
Talvez hoje Cristo esteja nos convidando a observar menos aquilo que dizemos e mais de onde estamos dizendo.
A mesma palavra pode nascer do amor ou do orgulho.
O mesmo conhecimento pode servir ou dominar.
A mesma correção pode restaurar ou humilhar.
O coração faz diferença.
Quando o ego entra na conversa, a pessoa diante de nós começa a desaparecer.
Ela deixa de ser alguém a compreender.
Torna-se alguém a derrotar.
Mas, quando Cristo volta ao centro, algo muda.
Voltamos a enxergar uma pessoa.
Com dignidade.
Com uma história.
Com algo a ensinar.
Talvez com algo a corrigir.
Mas nunca como um adversário cuja derrota provará nosso valor.
A humildade não precisa abandonar a verdade.
Precisa apenas abandonar a necessidade de usá-la para ficar acima.
Relembre alguma conversa recente em que você se sentiu especialmente provocado.
Observe como você se comportou.
Você ouviu?
Interrompeu?
Tentou compreender?
Precisou demonstrar que sabia mais?
Continuou discutindo mesmo depois que o diálogo já havia perdido sentido?
Em que momento deixei de buscar entendimento e comecei a buscar superioridade?
Não use essa pergunta para se condenar.
Apenas reconheça.
E peça que Cristo transforme a próxima conversa antes que o ego precise transformá-la em disputa.
Senhor Jesus,
Tu conheces minhas conversas.
Conheces as vezes em que quero compreender.
E também aquelas em que quero apenas vencer.
Quando minha necessidade de estar certo se torna maior do que minha disposição de amar.
Quando uso conhecimento para me colocar acima.
Quando interrompo.
Corrijo sem escutar.
Respondo antes de compreender.
Cristo, dá-me um coração humilde.
Ensina-me a ouvir com atenção.
A fazer perguntas.
A admitir quando não sei.
A reconhecer quando o outro tem razão.
E a permanecer seguro quando ainda discordamos.
Livra-me da necessidade de provar meu valor através das palavras.
Meu valor está em Ti.
Que eu não precise ser o mais inteligente.
O mais preparado.
O último a falar.
Nem aquele que sempre tem uma resposta.
Que minhas palavras sirvam à verdade.
E que a verdade sirva ao amor.
Quando o ego entrar na conversa, chama-me de volta para Ti.
Para que eu me lembre:
não preciso estar acima.
Preciso apenas permanecer perto do Teu coração.
Amém.
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