É possível servir por muitas razões.
Por responsabilidade.
Por obrigação.
Para corresponder às expectativas.
Para ser reconhecido.
Para sentir que somos úteis.
Até mesmo para tentar provar a Deus que merecemos seu favor.
Sem perceber, podemos transformar a vida cristã em uma tentativa constante de conquistar aquilo que já nos foi oferecido pela graça.
Fazemos mais.
Servimos mais.
Nos esforçamos mais.
E, em algum lugar do coração, esperamos que Deus olhe para tudo isso e conclua:
“Agora você merece meu amor.”
Mas o evangelho começa exatamente no sentido contrário.
Deus não nos ama porque conseguimos servir bem.
Servimos porque fomos amados.
Não fazemos boas obras para conquistar um lugar junto a Cristo.
As boas obras nascem porque, em Cristo, já fomos alcançados pela graça.
A Palavra nos lembra:
“Pois somos criação de Deus, realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos.”
(Efésios 2:10)
Antes das boas obras vem a graça.
Antes do serviço vem o amor recebido.
Antes de nossas mãos se moverem em direção ao outro, Deus já se moveu em nossa direção.
Essa ordem muda tudo.
O serviço deixa de ser uma tentativa de pagamento.
Torna-se resposta.
Não servimos dizendo:
“Deus, veja o que estou fazendo para merecer Teu amor.”
Servimos dizendo:
“Senhor, porque fui amado por Ti, quero permitir que esse amor alcance outras pessoas através de mim.”
Quando o serviço nasce da gratidão, ele deixa de ser peso.
Torna-se consequência da graça.
Existe uma grande diferença entre servir para ser amado e servir porque fomos amados.
Por fora, as atitudes podem parecer exatamente iguais.
Ajudamos.
Cuidamos.
Participamos.
Contribuímos.
Estamos presentes.
Mas, por dentro, a experiência pode ser completamente diferente.
Quando servimos para conquistar aprovação, nunca sabemos se fizemos o suficiente.
Sempre poderíamos ter feito mais.
Ajudado mais.
Orado mais.
Participado mais.
Sacrificado mais.
A relação com Deus começa a se parecer com uma conta que nunca conseguimos pagar.
E a fé se torna cansativa.
Mas a graça nos conduz para outro lugar.
Cristo não esperou que nos tornássemos dignos para nos amar.
Ele veio ao nosso encontro.
O amor de Deus não foi uma recompensa pelo nosso bom comportamento.
Foi iniciativa.
Presente.
Graça.
É dessa experiência que nasce o serviço cristão.
Quando compreendemos que já fomos recebidos, não precisamos usar nossas boas obras para negociar com Deus.
Podemos simplesmente responder com gratidão.
O serviço então muda de linguagem.
Deixa de dizer:
“Preciso fazer isso para que Deus se agrade de mim.”
E começa a dizer:
“Quanta graça recebi. Como posso compartilhar um pouco dela?”
Essa mudança também transforma nossa relação com as pessoas.
Quando servimos para provar nosso valor, precisamos que o serviço produza algum resultado sobre nós.
Queremos reconhecimento.
Queremos sentir que somos bons.
Queremos ser necessários.
Mas, quando o serviço nasce da gratidão, o foco pode permanecer no outro.
Já não precisamos que cada gesto confirme nossa identidade.
Nossa identidade está em Cristo.
Podemos ajudar e seguir em frente.
Podemos servir sem anunciar.
Podemos oferecer algo e não controlar o resultado.
Podemos até reconhecer nossos limites sem sentir que estamos decepcionando Deus.
Isso é importante.
Porque gratidão não significa disponibilidade ilimitada.
Não precisamos fazer tudo para demonstrar que somos gratos.
Cristo não nos chama para viver exaustos tentando provar dedicação.
O serviço que nasce da graça também sabe descansar.
Sabe dizer não quando necessário.
Sabe reconhecer que existem diferentes chamados, dons e responsabilidades.
Não servimos movidos pela culpa.
Servimos movidos pelo amor.
E amor não é compulsão.
É liberdade.
Talvez por isso Paulo coloque as boas obras depois da graça.
Elas não são a raiz da salvação.
São fruto.
Uma árvore não produz fruto para se tornar árvore.
Produz porque está viva.
Da mesma maneira, não fazemos o bem para nos tornarmos filhos amados de Deus.
O bem começa a aparecer porque fomos alcançados por Ele.
Essa compreensão torna até os pequenos serviços diferentes.
Uma tarefa simples pode se tornar gratidão.
Cuidar de alguém pode se tornar gratidão.
Dividir aquilo que temos.
Escutar.
Ajudar.
Ensinar.
Receber alguém.
Servir em casa.
Trabalhar com integridade.
Tudo isso pode dizer silenciosamente:
“Obrigado, Senhor, pelo amor que recebi.”
Então o serviço deixa de ser uma moeda.
Torna-se adoração.
Não compramos o favor de Deus.
Celebramos o favor que já nos alcançou.
Talvez hoje você esteja cansado de tentar fazer tudo certo diante de Deus.
Talvez tenha transformado o serviço em uma forma de compensar erros.
Como se precisasse fazer coisas boas suficientes para equilibrar aquilo que considera ruim em si mesmo.
Cristo o convida a abandonar essa contabilidade.
A cruz não precisa da nossa complementação.
A graça não precisa ser merecida depois de recebida.
Podemos reconhecer nossos erros.
Reparar aquilo que for possível.
Crescer.
Mudar.
Mas não precisamos servir para comprar perdão.
Nós servimos a partir do perdão.
Essa é a liberdade do evangelho.
Primeiro recebemos.
Depois oferecemos.
Primeiro somos alcançados.
Depois caminhamos em direção ao próximo.
Primeiro Cristo nos serve com sua graça.
Depois nossas mãos aprendem a servir.
E quanto mais reconhecemos aquilo que recebemos, mais natural se torna perguntar:
“Como posso expressar essa gratidão hoje?”
Talvez não através de algo grandioso.
Talvez apenas no cuidado diante de você.
No bem possível.
No gesto simples.
Na fidelidade silenciosa.
Quando o serviço nasce da gratidão, até pequenas coisas podem se tornar uma resposta de amor.
Observe suas motivações para servir.
Quando você faz algo para Deus ou para alguém, existe dentro de você a sensação de que precisa provar alguma coisa?
Que precisa merecer o amor de Deus?
Compensar erros?
Mostrar que é uma pessoa boa?
Ou conquistar aprovação?
Permita que Cristo alcance esse lugar.
Estou servindo para conquistar o amor de Deus ou porque já fui alcançado por Ele?
Permaneça alguns instantes nessa verdade:
Você não precisa comprar a graça.
Pode recebê-la.
E, a partir dela, servir com liberdade.
Senhor,
obrigado porque Teu amor veio antes das minhas obras.
Antes do meu esforço.
Antes da minha capacidade de servir.
Tu me alcançaste pela graça.
Perdoa-me pelas vezes em que transformo a fé em uma tentativa de conquistar aquilo que Tu já ofereceste.
Quando sirvo para provar meu valor.
Quando tento compensar meus erros.
Quando imagino que preciso merecer Teu amor.
Cristo, devolve meu coração à graça.
Ensina-me a servir a partir da gratidão.
Não da culpa.
Não do medo.
Não da necessidade de aprovação.
Que minhas boas obras não sejam uma negociação contigo.
Que sejam resposta ao amor que recebi.
Dá-me alegria para fazer o bem.
Sabedoria para reconhecer meus limites.
E liberdade para descansar quando for necessário.
Que minhas mãos expressem gratidão.
Que meu cuidado reflita Tua graça.
E que, através da minha vida, outras pessoas também possam experimentar um pouco do amor que primeiro me alcançou.
Amém.
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