É possível frequentar um lugar sem realmente pertencer a ele.
Chegar.
Sentar.
Participar de uma atividade.
Cumprimentar algumas pessoas.
E ir embora sem que nossa vida tenha verdadeiramente encontrado a vida de ninguém.
A presença física é importante.
Mas a comunhão cristã pede algo além.
Pede disponibilidade.
Interesse.
Continuidade.
Uma disposição interior para deixar de ser apenas alguém que passa pelo ambiente e tornar-se alguém que participa daquilo que está sendo construído.
A Palavra nos orienta:
“Pensemos uns nos outros e procuremos ajudar-nos mutuamente a ter mais amor e a fazer o bem. Não deixemos de nos reunir [...] mas animemos uns aos outros.”
(Hebreus 10:24–25)
O texto não fala apenas sobre estar no mesmo espaço.
Fala em pensar uns nos outros.
Estimular.
Encorajar.
Perceber.
A comunhão começa quando a presença deixa de ser apenas geográfica e se transforma em cuidado.
Pertencer também significa poder dizer:
“Eu estou aqui.”
E permitir que essa frase seja percebida na vida dos outros.
Vivemos em uma época em que podemos estar conectados com muitas pessoas e, ainda assim, permanecer pouco presentes.
Participamos de grupos.
Recebemos mensagens.
Acompanhamos acontecimentos.
Sabemos um pouco sobre muitas vidas.
Mas intimidade, confiança e comunhão precisam de algo que a simples conexão não consegue oferecer:
presença verdadeira.
Presença é prestar atenção.
É lembrar do que alguém compartilhou.
É perguntar novamente.
É perceber uma ausência.
É oferecer ajuda quando existe necessidade.
É permitir também que outros saibam como estamos.
Por isso, pertencer exige mais do que esperar que uma comunidade faça algo por nós.
Também envolve perguntar:
“O que estou oferecendo à vida que compartilhamos?”
Não necessariamente uma grande tarefa.
Talvez presença.
Escuta.
Disponibilidade.
Uma oração.
Um serviço simples.
Uma palavra de encorajamento.
Um compromisso que assumimos e cumprimos.
A comunidade começa a se tornar nossa quando deixamos de apenas consumi-la e passamos a contribuir para ela.
Isso não significa que todos precisam participar de tudo.
Há diferentes fases da vida.
Existem períodos de maior disponibilidade e outros de limitações reais.
Crianças pequenas.
Enfermidades.
Trabalho intenso.
Cuidado de familiares.
Cansaço emocional.
Cristo não mede pertencimento por quantidade de atividades.
A questão é outra:
Dentro das possibilidades que tenho hoje, estou verdadeiramente presente?
Porque podemos frequentar muitos encontros e permanecer distantes.
E podemos ter poucas oportunidades, mas oferecer nelas atenção inteira.
Presença também exige constância.
Relacionamentos raramente se tornam profundos em um único encontro.
Confiança nasce aos poucos.
Uma conversa.
Depois outra.
Uma experiência compartilhada.
Um momento difícil atravessado junto.
Uma alegria celebrada.
É assim que deixamos de ser apenas conhecidos e começamos a nos tornar companheiros de caminhada.
Os primeiros cristãos perseveravam na comunhão.
Essa palavra carrega continuidade.
Eles voltavam.
Compartilhavam.
Oravam.
Partiam o pão.
Aprendiam a organizar a vida ao redor de uma fé que também possuía dimensão comunitária.
Talvez hoje tenhamos dificuldade com essa continuidade.
Quando algo nos incomoda, afastamo-nos rapidamente.
Quando não somos procurados, concluímos que não fazemos falta.
Quando uma relação exige esforço, esperamos que alguém dê o primeiro passo.
Mas comunidade é construída por pessoas que decidem permanecer presentes mesmo quando não recebem atenção perfeita o tempo inteiro.
Isso não significa permanecer em ambientes abusivos ou inseguros.
Há situações em que afastar-se é necessário.
Mas existe diferença entre proteger-se de um ambiente prejudicial e abandonar toda relação quando ela deixa de ser conveniente.
Comunhão exige disposição para atravessar pequenas frustrações.
Conversar.
Ajustar expectativas.
Reconhecer que todos estão aprendendo.
Também existe outra presença que precisamos oferecer:
a nossa realidade.
Às vezes, estamos perto das pessoas, servimos, ajudamos, participamos, mas nunca permitimos que ninguém se aproxime de nós.
Conhecem nossa disponibilidade.
Mas não nossas dificuldades.
Conhecem nossa força.
Mas não nossas perguntas.
Nesse caso, estamos presentes para a comunidade, mas ainda não completamente presentes nela.
Pertencer também é permitir-se ser conhecido.
Com discernimento.
Sem exposição desnecessária.
Mas com verdade suficiente para que exista reciprocidade.
Podemos dizer:
“Estou precisando de oração.”
“Essa semana está difícil.”
“Você pode caminhar comigo nessa questão?”
Comunhão não é apenas oferecer nossa força.
É também oferecer nossa vulnerabilidade.
Porque, quando mostramos apenas aquilo que conseguimos dar, talvez estejamos servindo.
Mas ainda não estejamos permitindo que o outro nos ame.
Existe uma beleza profunda numa comunidade em que cada pessoa pode, em diferentes momentos, oferecer e receber.
Hoje eu sustento.
Amanhã talvez precise ser sustentado.
Hoje eu escuto.
Outro dia precisarei falar.
Hoje percebo a ausência de alguém.
Em algum momento, talvez alguém perceba a minha.
É assim que um conjunto de pessoas começa a se parecer com um corpo.
Paulo dizia que somos membros uns dos outros.
Essa imagem nos lembra que pertencimento envolve vínculo.
Aquilo que acontece com uma parte importa às demais.
Talvez não consigamos cuidar de todos.
Não precisamos.
Mas podemos cuidar de alguém.
Não conseguiremos conhecer profundamente cada pessoa de uma comunidade.
Mas podemos abandonar o anonimato absoluto.
Podemos construir alguns vínculos reais.
Talvez o passo de hoje seja simples.
Ficar alguns minutos a mais para conversar.
Convidar alguém para um café.
Enviar uma mensagem para quem não apareceu.
Cumprir uma responsabilidade assumida.
Perguntar como terminou uma situação mencionada dias atrás.
Ou, talvez, permitir que alguém se aproxime de nós.
Pequenas atitudes começam a dizer:
“Minha presença aqui não é apenas uma passagem.”
“Quero participar.”
Pertencimento cresce dessa forma.
Não quando encontramos pessoas perfeitas.
Mas quando pessoas imperfeitas começam, pouco a pouco, a oferecer presença umas às outras.
Cristo nos reúne.
E depois nos ensina a permanecer.
Pense na comunidade da qual você participa.
Você está apenas frequentando?
Ou existe alguma parte da vida compartilhada em que sua presença já pode ser percebida?
Quem você conhece de verdade?
Quem conhece um pouco mais de você?
Existe alguém cuja ausência você perceberia?
E alguém que perceberia a sua?
De que maneira Cristo está me convidando a transformar minha frequência em presença?
Não procure algo grandioso.
Talvez exista um gesto simples que possa começar hoje.
Senhor Jesus,
obrigado porque me chamas para pertencer.
Não quero apenas ocupar espaços.
Quero aprender a estar verdadeiramente presente.
Dá-me olhos para perceber as pessoas ao meu redor.
Memória para lembrar de suas histórias.
Sensibilidade para notar quem precisa de cuidado.
E disposição para participar daquilo que estamos construindo juntos.
Livra-me de viver a comunidade apenas como consumidor.
Mostra-me aquilo que posso oferecer.
Meu tempo.
Minha escuta.
Meu serviço.
Minha oração.
Minha presença.
Ensina-me também a permitir que outros se aproximem de mim.
A compartilhar com sabedoria aquilo que carrego.
A receber cuidado sem vergonha.
A permanecer quando pequenas frustrações surgirem.
E a discernir quando limites forem necessários.
Cristo, transforma minha presença em comunhão.
Que, onde eu estiver, alguém possa encontrar em mim um pouco do cuidado que encontro em Ti.
Amém.
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