Nem sempre é difícil servir.
Às vezes, o mais difícil é servir sem ocupar o centro.
Fazer o que precisa ser feito.
Ajudar.
Organizar.
Resolver.
Cuidar.
Contribuir.
E depois permitir que o resultado seja maior do que a nossa necessidade de aparecer nele.
Existe uma tentação sutil no serviço.
Começamos querendo ajudar.
Mas, pouco a pouco, podemos desejar também ser reconhecidos como aqueles que ajudaram.
Queremos participar.
Mas queremos que percebam nossa participação.
Queremos contribuir.
Mas sentimos desconforto quando outra pessoa recebe o reconhecimento.
Queremos que tudo dê certo.
Mas também queremos que fique claro quanto daquilo aconteceu por nossa causa.
O serviço continua acontecendo.
Mas nós começamos a ocupar espaço demais dentro dele.
Jesus nos apresenta um caminho diferente.
A Palavra nos orienta:
“Pois nem mesmo o Filho do Homem veio para ser servido, mas sim para servir e dar a sua vida como resgate por muitas pessoas.”
(Marcos 10:45)
Jesus tinha autoridade.
Poder.
Sabedoria.
Pessoas o procuravam.
Multidões o seguiam.
Ainda assim, Ele escolheu o lugar do servo.
Não precisava diminuir ninguém para afirmar quem era.
Não precisava disputar importância.
Não precisava transformar cada gesto em demonstração de grandeza.
Sua identidade estava segura no Pai.
Por isso, podia servir.
O serviço de Cristo não perguntava:
“Como isso me fará parecer?”
Perguntava:
“O que o amor pede neste momento?”
Essa mudança parece pequena.
Mas transforma profundamente a maneira como fazemos o bem.
Porque servir sem ocupar o centro é permitir que o cuidado seja mais importante do que nossa imagem.
É possível fazer algo bom e, ao mesmo tempo, alimentar o ego.
Podemos ajudar alguém e desejar que todos saibam.
Participar de um projeto e precisar que nosso nome esteja ligado ao resultado.
Resolver um problema e ficar incomodados quando outra pessoa recebe o agradecimento.
Servir e depois lembrar constantemente quanto fizemos.
O gesto pode ser bom.
Mas o coração ainda procura um lugar de destaque.
Isso acontece porque reconhecimento produz uma sensação agradável.
Sentimo-nos importantes.
Necessários.
Valiosos.
E não existe algo errado em receber uma palavra sincera de gratidão.
O problema começa quando precisamos dela para continuar servindo.
Então, sem perceber, o serviço se torna uma maneira de afirmar nossa importância.
Jesus nos ensina outra lógica.
Pouco antes de falar que veio para servir, seus discípulos discutiam sobre posições de destaque.
Queriam saber quem ocuparia os melhores lugares.
Era uma lógica conhecida.
Ser grande significava estar acima.
Ser reconhecido.
Ter influência.
Ser servido.
Jesus inverteu essa lógica.
No Reino de Deus, grandeza não aparece primeiro na quantidade de pessoas que nos servem.
Aparece na disposição de servir.
Isso não significa diminuir nossos dons.
Nem esconder competências.
Nem fingir que não contribuímos.
Humildade não é negar aquilo que Deus nos deu.
É usar aquilo que recebemos sem precisar transformar o dom em trono.
Podemos liderar servindo.
Ensinar servindo.
Organizar servindo.
Decidir servindo.
Quanto maior a responsabilidade, maior pode ser a oportunidade de colocar nossa capacidade a favor de outras pessoas.
O problema não é ocupar uma posição.
É permitir que a posição ocupe o coração.
Quando precisamos estar no centro, tudo começa a girar ao redor de nós.
Queremos controlar os detalhes.
Temos dificuldade de delegar.
Sentimos ameaça quando alguém faz algo bem.
Precisamos que nossas ideias prevaleçam.
Ficamos incomodados quando não somos consultados.
Até o serviço pode se transformar em território.
“Essa área é minha.”
“Fui eu quem começou.”
“Sem mim, isso não funcionaria.”
Talvez exista verdade em parte dessas afirmações.
Mas elas também podem revelar que deixamos de perceber o serviço como algo oferecido e começamos a tratá-lo como propriedade.
Servir como Cristo significa abrir as mãos.
Contribuir para que algo floresça, mesmo quando não precisaremos permanecer no centro desse crescimento.
Isso exige segurança interior.
Quem sabe quem é diante de Deus não precisa diminuir outra pessoa para manter seu lugar.
Pode ensinar alguém que talvez faça melhor no futuro.
Pode compartilhar conhecimento.
Pode delegar.
Pode celebrar o talento de outra pessoa.
Pode permitir que alguém cresça sem interpretar esse crescimento como ameaça.
O serviço deixa de construir dependência.
Começa a construir pessoas.
Isso aparece muito no cotidiano.
Em casa, podemos fazer uma tarefa sem usar depois aquilo como argumento em todas as discussões.
No trabalho, podemos ajudar um colega sem precisar mostrar ao grupo que fomos responsáveis pela solução.
Na comunidade, podemos contribuir para uma iniciativa sem exigir que tudo tenha nossa marca.
Em uma liderança, podemos preparar pessoas para assumir responsabilidades que antes eram nossas.
Existem serviços cujo resultado mais bonito é justamente tornar nossa presença menos necessária.
Ensinamos alguém.
Ela aprende.
Apoiamos.
Ela ganha confiança.
Organizamos.
Outros passam a conseguir organizar.
Abrimos um caminho.
Outras pessoas começam a caminhar por ele.
O ego pode dizer:
“Agora não precisam mais de mim.”
O amor pode responder:
“Então o serviço cumpriu parte de sua missão.”
Há liberdade nesse pensamento.
Porque já não precisamos ser indispensáveis para sermos importantes.
Nosso valor não depende do quanto uma estrutura precisa de nós.
Nem do número de pessoas que recorrem à nossa opinião.
Somos amados por Deus antes de qualquer função.
Essa segurança nos permite servir sem agarrar o lugar.
Jesus demonstrou isso de maneira extraordinária.
Ele formou discípulos.
Ensinou.
Corrigiu.
Preparou.
E entregou responsabilidades a eles.
Não construiu seguidores para permanecer sempre dependentes de sua presença física.
Preparou-os para continuar a missão.
O verdadeiro serviço multiplica.
Não centraliza tudo em si.
Por isso, talvez uma boa pergunta seja:
“Meu modo de servir faz as pessoas crescerem ou apenas confirma minha importância?”
Pode ser que estejamos fazendo coisas demais porque temos dificuldade de permitir que outros participem.
Reclamamos que ninguém ajuda.
Mas corrigimos toda pessoa que tenta ajudar.
Dizemos que estamos sobrecarregados.
Mas não conseguimos entregar nenhuma responsabilidade.
Queremos colaboração.
Desde que tudo seja feito exatamente do nosso jeito.
Talvez o problema nem sempre seja falta de pessoas disponíveis.
Às vezes, precisamos abrir espaço.
Servir sem ocupar o centro também é permitir que outros contribuam.
Aceitar métodos diferentes.
Ensinar com paciência.
Dar oportunidade para alguém errar e aprender.
Celebrar o resultado sem precisar acrescentar:
“Mas fui eu quem ensinou.”
O amor não precisa deixar sua assinatura em tudo.
Há ainda outro aspecto.
Podemos ocupar o centro não apenas pelo orgulho, mas pelo medo.
Tememos que, se não fizermos tudo, algo dará errado.
Acreditamos que somente nós conhecemos os detalhes.
Que ninguém cuidará com a mesma atenção.
Então assumimos cada tarefa.
E nos esgotamos.
Mas humildade também é reconhecer que somos limitados.
O mundo não depende de nós.
A obra de Deus não depende exclusivamente de nossas mãos.
Podemos descansar.
Dividir.
Confiar.
Permitir que outras pessoas ofereçam seus dons.
Servir sem ocupar o centro não significa tornar-se irrelevante.
Significa ocupar o lugar certo.
Nem acima.
Nem abaixo.
Apenas disponível.
Perguntando:
“O que precisa ser feito?”
“Como posso contribuir?”
“Quem mais pode participar?”
“O que posso entregar depois de cumprir minha parte?”
Essa postura muda o serviço.
Ele se torna mais leve.
Mais generoso.
Mais comunitário.
Mais parecido com Cristo.
Talvez ninguém precise saber que você resolveu determinada situação.
Talvez outra pessoa receba o elogio.
Talvez uma ideia que começou com você seja desenvolvida por alguém e ganhe outra forma.
Tudo bem.
Se o bem aconteceu, existe motivo para gratidão.
Não precisamos estar no centro de tudo aquilo que ajudamos a construir.
Cristo pode nos ensinar a servir e depois dar espaço.
Fazer o necessário.
Entregar o resultado.
E seguir em paz.
Porque a pergunta mais importante não é:
“Todos perceberam minha contribuição?”
É:
“O amor foi servido?”
Quando essa pergunta se torna suficiente, o coração encontra liberdade.
Pense em uma área em que você costuma servir.
Em casa.
No trabalho.
Na comunidade.
Em algum projeto.
Observe como você se sente quando outra pessoa recebe reconhecimento.
Quando alguém propõe uma maneira diferente de fazer.
Quando não pedem sua opinião.
Quando algo continua funcionando sem sua presença.
Há incômodo?
Necessidade de mostrar sua contribuição?
Dificuldade de delegar?
Medo de deixar de ser necessário?
Leve isso a Cristo.
Consigo servir para que o bem aconteça, mesmo quando eu não estiver no centro?
Pergunte se existe alguma responsabilidade que você precisa compartilhar.
Algum mérito que pode dividir.
Alguma pessoa que pode encorajar.
Ou alguma tarefa que pode simplesmente fazer sem precisar deixar seu nome nela.
Senhor,
ensina-me a servir sem precisar ocupar o centro.
Tu conheces meus dons.
Minhas capacidades.
Aquilo que consigo oferecer.
Mas também conheces minha necessidade de reconhecimento.
As vezes em que quero que percebam minha importância.
Quando tenho dificuldade de compartilhar responsabilidades.
Quando me sinto ameaçado pelo crescimento de outra pessoa.
Cristo, dá-me um coração seguro em Ti.
Que eu não precise provar meu valor por meio do serviço.
Ensina-me a contribuir sem controlar.
A liderar sem dominar.
A ensinar sem criar dependência.
A ajudar sem exigir destaque.
Dá-me alegria quando outras pessoas crescerem.
Quando novos dons aparecerem.
Quando alguém fizer melhor aquilo que um dia ensinei.
Quando o bem continuar sem que meu nome esteja no centro.
Ajuda-me também a reconhecer meus limites.
A dividir responsabilidades.
A confiar.
A descansar.
Que eu faça com fidelidade aquilo que precisa ser feito.
E depois tenha liberdade para abrir as mãos.
Que minhas capacidades sirvam às pessoas.
Que minha presença fortaleça.
Que meu serviço aponte para Ti.
E que, no final, seja mais importante para mim que o amor tenha acontecido do que saberem que fui eu quem o realizou.
Amém.
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