Se dependesse apenas da afinidade, talvez muitas comunidades nunca existissem.
Somos diferentes.
Temos histórias distintas.
Temperamentos.
Formas de pensar.
Ritmos.
Experiências.
Preferências.
Algumas pessoas se aproximariam naturalmente de nós.
Outras, talvez, jamais escolheríamos para caminhar ao nosso lado.
Mas a comunhão cristã nasce de algo maior do que afinidade.
Ela nasce de Cristo.
Paulo escreveu:
“Há um só corpo e um só Espírito [...] há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos.”
(Efésios 4:4–6)
O centro não está em nossas semelhanças.
Está naquele que nos chamou.
É Cristo quem reúne.
É Cristo quem dá sentido à mesa compartilhada.
Ao cuidado.
À paciência.
À reconciliação.
À disposição de permanecer juntos mesmo quando isso exige maturidade.
A comunidade cristã não é formada por pessoas que finalmente encontraram alguém igual a si.
É formada por pessoas diferentes que aprenderam a reconhecer um mesmo Senhor.
E, pouco a pouco, deixam que seu amor se torne maior do que aquilo que poderia separá-las.
Ao longo deste bloco, vimos que a fé também precisa de companhia.
Que ninguém amadurece completamente sozinho.
Que há fardos que precisam ser divididos.
Que graça e verdade devem caminhar juntas.
Que pertencer exige presença.
Que a alegria do outro não precisa se tornar competição.
Que a mesa pode carregar espiritualidade.
Que diferenças não precisam destruir unidade.
E que nossa presença pode se tornar descanso para quem está cansado.
Tudo isso encontra sentido em Cristo.
Sem Ele no centro, comunidade pode facilmente se tornar apenas grupo.
Um lugar de afinidades.
Interesses.
Preferências.
Pessoas que gostam das mesmas coisas.
Nada disso é necessariamente ruim.
Mas a comunhão cristã vai além.
Ela nos aproxima de pessoas que talvez não escolheríamos naturalmente.
E nos pergunta:
“Você consegue amar alguém sem precisar transformá-lo numa versão de você?”
Essa pergunta é profundamente espiritual.
Porque uma das tentações da vida comunitária é confundir unidade com semelhança.
Queremos que todos enxerguem como enxergamos.
Façam como fazemos.
Valorizem exatamente aquilo que valorizamos.
Mas um corpo não é formado por partes iguais.
Paulo insiste nisso.
“Agora, porém, Deus colocou cada um dos membros no corpo, conforme ele quis.”
(1 Coríntios 12:18)
A diversidade não precisa ser um problema a ser eliminado.
Pode ser uma graça a ser recebida.
O outro possui algo que não possuímos.
Uma sensibilidade diferente.
Um dom.
Uma história.
Uma maneira de enxergar.
Isso não significa que toda diferença seja irrelevante.
Existem verdades que precisam ser preservadas.
Há comportamentos que precisam ser corrigidos.
Limites que precisam ser estabelecidos.
Mas nem toda diferença é uma ameaça à comunhão.
A maturidade aprende a distinguir aquilo que realmente nos afasta de Cristo daquilo que apenas desafia nossas preferências.
Esse discernimento exige humildade.
Também exige lembrar constantemente quem ocupa o centro.
Quando nosso ego ocupa o centro, comunidade se torna disputa.
Quem aparece mais.
Quem sabe mais.
Quem influencia mais.
Quem recebe reconhecimento.
Quando nossas preferências ocupam o centro, começamos a dividir pessoas entre as que “combinam conosco” e as que não combinam.
Mas, quando Cristo ocupa o centro, a pergunta muda.
Deixa de ser:
“Esta pessoa é parecida comigo?”
E se torna:
“Como posso amar esta pessoa como alguém que também foi alcançado pela graça?”
Isso não elimina diferenças.
Mas muda a maneira como atravessamos essas diferenças.
Jesus disse:
“Assim como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros.”
(João 13:34)
Esse amor é o fundamento da comunhão.
Não um sentimento constante de proximidade.
Nem ausência de conflitos.
Mas uma decisão repetida de tratar o outro à luz da graça que também recebemos.
Haverá momentos de grande alegria comunitária.
Celebrações.
Mesa.
Risos.
Orações respondidas.
Mas também haverá momentos difíceis.
Mal-entendidos.
Cansaço.
Diferenças.
Feridas.
Necessidade de perdão.
É nesses momentos que descobrimos se nossa comunhão estava apoiada apenas em afinidade ou verdadeiramente em Cristo.
Afinidade aproxima quando tudo flui.
O amor de Cristo nos ensina a permanecer quando é necessário conversar.
Reparar.
Perdoar.
Esperar.
E, algumas vezes, reconhecer que um vínculo precisa assumir outra forma sem que o coração se torne hostil.
Comunhão não significa proximidade igual com todos.
Não significa confiar da mesma maneira em todas as pessoas.
Nem permanecer em ambientes onde existe abuso, manipulação ou destruição.
Unidade não cancela discernimento.
Mas mesmo quando limites são necessários, Cristo nos convida a não permitir que o ressentimento se torne nosso centro.
Ele continua sendo o centro.
Essa é talvez uma das maiores graças da comunidade.
Ela nos lembra que a fé não gira apenas ao redor da nossa experiência individual.
Há um povo.
Uma história maior.
Pessoas antes de nós.
Pessoas ao nosso lado.
Pessoas que virão depois.
Todos dependentes da mesma graça.
Isso relativiza muitas das nossas disputas.
Talvez não precisemos ter tanta razão.
Tanta visibilidade.
Tanta importância.
Podemos ocupar nossa parte.
Oferecer nossos dons.
Receber aquilo que os outros oferecem.
E alegrar-nos porque o corpo é maior do que nós.
Cristo também nos reúne para testemunhar algo ao mundo.
Jesus disse:
“Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês são meus discípulos.”
(João 13:35)
Não é apenas aquilo que dizemos sobre Cristo que testemunha sua presença.
A maneira como tratamos uns aos outros também fala.
Quando conseguimos discordar sem destruir.
Quando carregamos fardos.
Quando celebramos o crescimento de alguém.
Quando acolhemos quem está cansado.
Quando abrimos espaço àquele que parecia diferente demais.
Quando pedimos perdão.
Quando permanecemos.
Algo do evangelho se torna visível.
Não uma comunidade perfeita.
Mas uma comunidade que continuamente retorna a Cristo.
Talvez esse seja o segredo.
Não estaremos sempre em harmonia.
Mas podemos sempre voltar ao centro.
Perguntar:
“Jesus, como Teu amor nos ensina a atravessar isso?”
Enquanto essa pergunta permanecer viva, a comunhão continua tendo um caminho.
Porque, no fim, não somos nós que produzimos a unidade pela nossa própria força.
Nós a cultivamos.
Protegemos.
Servimos.
Mas Cristo é quem nos reúne.
Em torno dele, pessoas diferentes deixam de ser apenas indivíduos que ocupam o mesmo lugar.
Tornam-se irmãos.
Um corpo.
Uma família espiritual.
Não porque sejam iguais.
Mas porque aprenderam a receber e oferecer o mesmo amor.
Pense na comunidade da qual você faz parte.
O que mais sustenta seus vínculos hoje?
Afinidade?
Preferências?
Costumes?
Ou Cristo?
Existe alguém que você tem dificuldade de reconhecer como parte da mesma família espiritual por causa de alguma diferença?
O que mudaria em minha maneira de viver a comunidade se Cristo voltasse a ocupar claramente o centro?
Permaneça alguns instantes nessa pergunta.
Talvez exista uma relação a ser revista.
Um orgulho a ser abandonado.
Uma aproximação possível.
Ou simplesmente gratidão por pessoas muito diferentes que Deus colocou no mesmo caminho.
Senhor Jesus,
Tu és o centro da nossa comunhão.
Não nossas preferências.
Não nossa afinidade.
Não nossa maneira particular de enxergar.
Tu.
Ensina-nos a viver como um só corpo.
A reconhecer os dons uns dos outros.
A atravessar diferenças com humildade.
A falar a verdade com amor.
A carregar fardos.
A celebrar alegrias.
A acolher quem está cansado.
Livra-nos da necessidade de transformar todos à nossa imagem.
E da arrogância que faz da nossa maneira a única maneira possível.
Quando surgirem conflitos, traz-nos de volta ao centro.
Quando o ego quiser dividir, lembra-nos da graça que todos recebemos.
Quando precisarmos estabelecer limites, dá-nos verdade sem ódio.
Quando precisarmos permanecer, dá-nos paciência.
Que nossa comunhão não dependa de sermos iguais.
Que dependa cada vez mais de permanecermos em Ti.
Cristo, reúne-nos em um só amor.
E faz da maneira como caminhamos juntos um testemunho vivo da Tua presença.
Amém.
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