Há coisas que nossas mãos conseguem fazer.
Preparar uma conversa.
Oferecer cuidado.
Rever um plano.
Pedir ajuda.
Dar um passo que vínhamos adiando.
E há coisas que, por mais importantes que sejam, não cabem nelas.
A resposta de outra pessoa.
O tempo de uma mudança.
A segurança de todos os caminhos futuros.
O desfecho de uma situação que ainda está se formando.
Ao longo destes dias, temos aprendido a reconhecer essa diferença. A olhar com honestidade para o que podemos fazer e a levar a Deus aquilo que não conseguimos conduzir.
Paulo escreveu:
“Não vivam ansiosos por causa de nada. Ao contrário, orem a Deus, em qualquer circunstância e peçam a Ele o que vocês precisam.”
(Filipenses 4:6)
Podemos chegar a Deus com nossas necessidades reais.
Com um pedido claro.
Com gratidão pelo cuidado já recebido.
E também com a ansiedade que ainda não sabemos como deixar para trás.
A entrega pode começar exatamente aí: trazendo a Cristo, mais uma vez, aquilo que nossas mãos não conseguem sustentar.
Talvez você tenha imaginado que entregar algo a Deus seria uma experiência definitiva.
Uma oração profunda.
Um momento de paz.
E, depois dele, a preocupação nunca mais voltaria.
Mas a vida raramente acontece desse modo.
Você ora por uma pessoa querida e, algumas horas depois, recebe uma mensagem que reacende sua inquietação.
Confia a Deus uma decisão e, no dia seguinte, surgem novas informações.
Consegue descansar por uma noite, mas acorda tentando prever outra vez como tudo terminará.
A entrega precisa encontrar lugar nessa realidade.
Confiar pode ser um gesto repetido ao longo da vida comum.
É por isso que não precisamos esperar uma fé sem oscilações para começar.
Podemos voltar a Cristo hoje.
E amanhã.
E novamente quando percebermos que estamos tentando carregar, sozinhos, o que havíamos confiado a Ele.
No início deste bloco, olhamos para o peso de querer garantir todos os resultados.
Talvez você tenha reconhecido esse peso em sua rotina.
Na necessidade de conferir cada detalhe.
Na dificuldade de descansar depois de uma decisão.
No receio de que, se parar de pensar em um problema, estará deixando de cuidar dele.
Aos poucos, fomos fazendo outras perguntas.
Quando o cuidado com alguém se transforma em tentativa de decidir por essa pessoa?
O que acontece conosco quando um plano muda?
Por que é tão difícil admitir que chegamos a um limite?
Como entregar aquilo que amamos sem nos afastarmos?
Em cada uma dessas situações, há uma parte que pede nossa presença.
E outra que pede nossa confiança.
Talvez hoje você esteja diante de uma relação importante.
Pode falar com honestidade.
Pode escutar.
Pode pedir perdão, oferecer ajuda ou estabelecer um limite.
Mas não pode produzir sozinho o entendimento do outro nem escolher por ele os próximos passos.
Talvez esteja acompanhando alguém em um período delicado.
Pode estar perto.
Buscar recursos.
Dividir tarefas.
Perceber necessidades práticas que não devem ser ignoradas.
Ainda assim, não consegue impedir toda dor nem assegurar que cada decisão dessa pessoa seja a que você tomaria.
Talvez esteja cuidando de um trabalho ou de um projeto.
Pode se preparar, agir com integridade e aprender com os erros.
Mas haverá fatores que não se curvarão ao seu esforço.
Nenhuma dessas limitações torna inútil a sua parte.
Uma conversa sincera importa, mesmo quando não produz uma resposta imediata.
Um gesto de cuidado importa, mesmo quando não resolve toda a situação.
O trabalho fiel importa, mesmo quando ainda não se pode ver seu resultado.
Podemos honrar aquilo que nossas mãos conseguem oferecer.
E podemos reconhecer o ponto em que elas precisam se abrir.
Às vezes, esse ponto só fica claro no fim do dia.
Você repassa mentalmente o que fez.
Pergunta se poderia ter dito mais, trabalhado mais, percebido mais cedo.
Talvez descubra algo que precisa reparar amanhã. Se for assim, peça a Deus sabedoria para fazê-lo.
Mas talvez perceba que está procurando uma tarefa adicional apenas porque é difícil esperar.
Nesse momento, pode ser útil dizer:
“Senhor, por hoje, fiz o que estava ao meu alcance.”
Essa frase pode ser dita com humildade.
Não afirma que você fez tudo perfeitamente.
Reconhece que este dia teve um limite e que sua vida também precisa de descanso.
Paulo convida os cristãos a apresentar a Deus o que precisam. Logo em seguida, fala da paz de Deus guardando o coração e a mente em Cristo Jesus (Fp 4:7).
Essa paz não depende de recebermos antecipadamente todas as respostas que pedimos.
Podemos continuar em uma situação aberta e buscar a presença de Cristo dentro dela.
Ainda haverá perguntas.
A conversa talvez precise ser retomada.
O exame pode não ter saído.
Uma decisão pode demorar.
O futuro continuará maior do que nossa capacidade de prevê-lo.
Mas podemos orar no meio dessa vida inacabada.
“Pai, eis o que me preocupa.”
“Eis o que desejo.”
“Mostra-me minha parte.”
“Ajuda-me a confiar-Te o restante.”
Talvez você precise fazer essa oração de manhã, antes de enfrentar uma responsabilidade.
Talvez precise repeti-la depois de uma conversa difícil.
Talvez seja a oração da noite, quando a casa silencia e os pensamentos ficam mais altos.
Cada vez que volta, você exercita uma forma de confiança.
A entrega também pode ganhar formas muito concretas.
Pedir a alguém que compartilhe um cuidado.
Desligar o telefone por algumas horas depois de uma tarefa concluída.
Dormir em vez de continuar pesquisando uma resposta que ainda não existe.
Esperar até amanhã para retomar uma questão que hoje não pode avançar.
Aceitar que uma pessoa amada percorra uma parte do próprio caminho.
Nenhum desses gestos é pequeno para quem se acostumou a viver em estado de vigilância.
Podemos praticá-los aos poucos, com a ajuda de Cristo.
Ao encerrarmos este primeiro bloco, talvez não tenhamos nos tornado pessoas que nunca se preocupam.
Talvez ainda sintamos o impulso de segurar com força o que amamos.
A caminhada espiritual não exige que escondamos isso.
Podemos reconhecer o impulso, voltar a Jesus e perguntar novamente:
“O que me cabe hoje?”
“O que preciso confiar ao Pai?”
Essa distinção poderá nos acompanhar nos próximos dias.
Quando precisarmos agir, agiremos.
Quando precisarmos pedir ajuda, pediremos.
Quando chegar a hora de parar, poderemos descansar.
E, quando nossas mãos parecerem pequenas diante do que enfrentamos, lembraremos que podemos apresentá-las a Cristo exatamente assim.
Com o cuidado que conseguiram oferecer.
Com as perguntas que ainda carregam.
E com aquilo que, por hoje, precisam entregar.
Olhe para os dias que passaram e pense em uma situação que continua ocupando seu coração.
Talvez você tenha oferecido muito cuidado a ela.
Talvez ainda exista uma providência concreta a tomar.
Talvez esteja apenas esperando algo que não consegue apressar.
Pergunte em silêncio:
O que cabe às minhas mãos nesta situação, e o que preciso colocar nas mãos de Deus?
Dê nome às duas partes.
Se houver um próximo passo responsável, considere quando poderá dá-lo.
Depois, apresente a Jesus o que permanece fora do seu alcance. Você poderá repetir essa entrega sempre que precisar.
Senhor Jesus,
trago a Ti minhas mãos como estão.
Elas trabalharam.
Cuidaram.
Tentaram proteger pessoas e situações preciosas para mim.
Às vezes, seguraram com força porque eu tinha medo do que poderia acontecer se as abrisse.
Tu conheces meu amor.
Conheces também meus limites.
Mostra-me o que me cabe fazer.
Dá-me coragem para as conversas necessárias.
Sabedoria para tomar decisões.
Atenção para oferecer cuidado concreto.
Humildade para pedir ajuda e reparar meus erros.
E ensina-me a reconhecer quando, por hoje, minha parte terminou.
Recebe as pessoas por quem oro.
Os planos que mudaram.
As respostas que ainda espero.
Os resultados que não consigo garantir.
Quando eu tentar carregar tudo outra vez, ajuda-me a voltar a Ti sem vergonha.
Quero aprender a entregar com sinceridade, tantas vezes quantas forem necessárias.
Guarda meu coração e minha mente enquanto caminho em meio ao que ainda não sei.
E ensina-me a descansar no cuidado do Pai, mesmo com questões abertas.
Senhor, coloco em Tuas mãos o que não cabe nas minhas.
Permanece comigo hoje.
Amém.
Deixe o seu comentário: