Existem verdades que ouvimos.
E existem verdades que, de algum modo, experimentamos.
Podemos falar sobre acolhimento.
Mas há diferença entre ouvir que somos bem-vindos e encontrar alguém que realmente abre espaço para nós.
Podemos falar sobre dignidade.
Mas há diferença entre conhecer esse conceito e ser tratado com respeito quando estamos vulneráveis.
Podemos falar sobre amor.
Mas há diferença entre escutar essa palavra e encontrar cuidado num momento em que a vida pesa.
Talvez seja por isso que João escreveu:
“Filhinhos, não amemos apenas de palavra, nem apenas da boca para fora. Amemos de verdade, por meio de nossas ações.”
(1 João 3:18)
O evangelho precisa de palavras.
Precisamos anunciar aquilo em que cremos.
Mas a mensagem de Cristo se torna especialmente perceptível quando aquilo que dizemos encontra correspondência na maneira como vivemos.
Quando alguém é acolhido.
Quando sua história é respeitada.
Quando sua dor não é diminuída.
Quando recebe cuidado sem precisar provar que merece.
Nesse momento, o amor deixa de ser apenas uma ideia.
Ganha forma.
E, através de gestos simples, algo do coração de Cristo pode ser sentido.
Jesus não tratava as pessoas como interrupções.
Elas possuíam nome.
História.
Dor.
Dignidade.
Algumas chegavam até Ele carregando vergonha.
Outras eram rejeitadas socialmente.
Algumas tinham perguntas.
Outras apenas precisavam de ajuda.
Cristo conseguia enxergar além daquilo que todos já haviam decidido sobre elas.
Essa maneira de receber pessoas também anunciava o Reino.
Talvez um dos primeiros modos de tornar o evangelho perceptível seja aprender a acolher.
Acolher não significa concordar com tudo.
Nem ignorar aquilo que precisa ser transformado.
Significa permitir que uma pessoa se aproxime sem precisar primeiro demonstrar que é digna do nosso respeito.
É olhar nos olhos.
Escutar.
Não fazer do passado do outro sua identidade definitiva.
Não tratar suas fragilidades como inconvenientes.
Há gente acostumada a entrar em ambientes já preparada para se defender.
Por causa da aparência.
Da condição econômica.
Da história.
Da origem.
De erros antigos.
Daquilo que ainda não conseguiu organizar na vida.
Quando encontra alguém que a recebe com dignidade, essa experiência pode comunicar muito.
Talvez nenhuma conversa espiritual aconteça naquele momento.
Mas alguma coisa é percebida:
“Eu fui visto como pessoa.”
Isso importa.
O respeito também é uma forma de testemunho.
Especialmente quando existe discordância.
É relativamente fácil tratar bem quem pensa como nós.
Mais revelador é aquilo que acontece quando encontramos alguém com outra visão.
Outro estilo de vida.
Outra história.
Outro modo de interpretar uma situação.
Podemos manter convicções.
Expressá-las com clareza.
E ainda assim preservar a dignidade de quem está diante de nós.
Não precisamos humilhar para sermos firmes.
Não precisamos ironizar para defender aquilo em que acreditamos.
Não precisamos reduzir uma pessoa àquilo em que discordamos dela.
O evangelho perde visibilidade quando falamos do amor de Cristo de uma maneira que faz o outro experimentar desprezo.
Mas pode se tornar profundamente perceptível quando verdade e respeito permanecem juntos.
Há também o cuidado.
Cuidado é quando aquilo que percebemos começa a produzir alguma responsabilidade em nós.
Jesus contou sobre um homem ferido à beira do caminho.
Outros passaram.
Um samaritano parou.
Viu.
Aproximou-se.
Cuidou.
O amor não permaneceu apenas na percepção.
Transformou-se em movimento.
Talvez muitas oportunidades de testemunho estejam escondidas em perguntas muito simples:
“Você está bem?”
“Posso ajudar em alguma coisa?”
“Quer que eu fique um pouco?”
“Precisa de uma carona?”
“Posso levar uma refeição?”
“Como ficou aquela situação que você me contou?”
Nada disso parece extraordinário.
Mas o evangelho frequentemente se torna visível no ordinário.
No cuidado que presta atenção.
Na presença que retorna.
Na ajuda que não precisa ser anunciada.
Também precisamos lembrar que acolher não significa invadir.
Nem todo cuidado será recebido da maneira que imaginamos.
Algumas pessoas precisam de espaço.
Outras ainda não confiam.
Talvez estejam cansadas de promessas.
Nesse caso, podemos respeitar.
Dizer:
“Estou por perto se precisar.”
E permitir que a confiança cresça no tempo certo.
O amor não força entrada.
Oferece presença.
Esse cuidado também deve chegar às pessoas que facilmente passam despercebidas.
Jesus disse:
“Tudo o que fizeram a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeram.”
(Mateus 25:40)
A maneira como tratamos quem não pode nos oferecer vantagem diz muito sobre aquilo que realmente ocupa nosso coração.
Como tratamos quem nos atende.
Quem limpa.
Quem entrega.
Quem pede ajuda.
Quem não possui influência.
Quem costuma ficar à margem.
É fácil oferecer atenção a quem consideramos importante.
O amor de Cristo amplia essa percepção.
Começamos a reconhecer dignidade onde o mundo frequentemente enxerga apenas função.
E talvez seja justamente aí que o evangelho se torna mais perceptível.
Não numa grande declaração.
Mas numa pessoa descobrindo que não será tratada como invisível.
Também precisamos evitar transformar cuidado em estratégia religiosa.
Não acolhemos alguém apenas para ganhar o direito de falar depois.
Não tratamos a pessoa como um projeto.
O outro não é instrumento para nosso desempenho espiritual.
É alguém amado por Deus.
Por isso, cuidamos mesmo que nunca recebamos reconhecimento.
Mesmo que nenhuma conversa religiosa aconteça.
Mesmo que a pessoa não responda como imaginamos.
O amor tem valor porque é amor.
Se houver espaço para compartilhar nossa fé, falaremos.
Mas nossas ações não precisam de um resultado para se tornarem sinceras.
Talvez esse seja um dos testemunhos mais fortes.
Um amor sem cálculo.
Não perguntando:
“O que receberei?”
Mas:
“O que esta pessoa precisa experimentar de mim agora?”
Talvez respeito.
Talvez escuta.
Talvez verdade.
Talvez ajuda.
Talvez apenas a ausência de julgamento precipitado.
Também falharemos nisso.
Haverá momentos em que estaremos distraídos.
Impacientes.
Cansados.
Talvez alguém experimente de nós exatamente o contrário daquilo que gostaríamos de transmitir.
Nesse caso, o evangelho também pode se tornar perceptível quando reconhecemos:
“Eu não tratei você como deveria.”
“Perdoe-me.”
O amor não exige uma imagem perfeita.
Exige verdade.
Uma vida disposta a voltar para Cristo e aprender novamente.
Talvez não consigamos fazer com que todas as pessoas compreendam aquilo que cremos.
Mas podemos pedir que Cristo transforme nossa maneira de estar diante delas.
Para que nossa presença se torne um pouco mais acolhedora.
Nossa fala, mais respeitosa.
Nosso cuidado, mais concreto.
E então algo acontece.
A fé deixa de parecer apenas um conjunto de ideias.
Ela começa a ter rosto.
Tom de voz.
Gestos.
Tempo.
Presença.
O evangelho continua sendo a boa notícia de Cristo.
Mas, através de uma vida tocada por Ele, essa boa notícia pode começar a ser percebida antes mesmo de ser plenamente compreendida.
Pense nas pessoas que cruzarão seu caminho hoje.
Quem costuma passar despercebido?
Quem talvez espere julgamento?
Quem precisa ser ouvido com mais respeito?
Quem está vivendo uma dificuldade que você já percebeu?
O que alguém poderia experimentar do amor de Cristo através da maneira como eu o tratar hoje?
Não procure algo grandioso.
Talvez o evangelho se torne perceptível num gesto muito simples.
Senhor Jesus,
quero que minha vida torne Teu amor perceptível.
Ensina-me a acolher como Tu acolhes.
A olhar para pessoas sem reduzi-las aos seus erros, às suas diferenças ou às suas circunstâncias.
Dá-me respeito na maneira de falar.
Paciência para ouvir.
Sensibilidade para perceber quem precisa de cuidado.
Livra-me de um amor apenas verbal.
Que minhas convicções encontrem expressão em atitudes.
Que eu saiba cuidar sem invadir.
Ajudar sem controlar.
Servir sem buscar reconhecimento.
E permanecer disponível sem transformar ninguém em projeto.
Quando eu falhar, dá-me humildade para reconhecer.
Quando alguém for ignorado, dá-me olhos para enxergar.
Quando surgir uma oportunidade simples de fazer o bem, livra-me da indiferença.
Cristo, que através da minha presença alguém possa encontrar um pequeno sinal da Tua acolhida.
Do Teu respeito.
Do Teu cuidado.
E que minha vida ajude a tornar visível o evangelho que meus lábios anunciam.
Amém.
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