É possível preparar uma casa para receber alguém e, quando essa pessoa chega, quase não conseguir estar com ela.
Há coisas a organizar.
Uma refeição a terminar.
Detalhes que desejamos deixar prontos.
O cuidado é sincero. Mas as tarefas podem ocupar tanto espaço que o encontro fica para depois.
Lucas conta que Marta recebeu Jesus em sua casa. Enquanto ela se ocupava com o serviço, sua irmã Maria se sentou aos pés dEle para ouvir suas palavras.
Em certo momento, Marta se aproximou e pediu que Jesus mandasse a irmã ajudá-la.
Ele respondeu:
“Marta, Marta! Você se preocupa e se incomoda com muitas coisas!”
(Lucas 10:41)
Em seguida, Jesus reconheceu a escolha de Maria de permanecer ouvindo-o (Lc 10:42).
Há ternura nesse chamado pelo nome.
Marta havia aberto sua casa. Jesus a convida a perceber o que estava acontecendo em seu coração enquanto servia.
Talvez essa cena também nos ajude a perguntar:
Tenho oferecido tantas coisas que já não consigo oferecer minha presença?
Podemos nos reconhecer em Marta.
Queremos que as coisas funcionem.
Percebemos o que falta.
Assumimos uma tarefa.
Depois outra.
E, quando olhamos ao redor, parece que alguém está tranquilo enquanto nós continuamos trabalhando.
Talvez conheçamos também a pergunta que ela faz a Jesus:
“O senhor não se importa?”
Essa pergunta pode nascer em muitos ambientes.
Numa casa em que uma pessoa parece carregar a maior parte das responsabilidades.
Num trabalho em que alguns assumem continuamente o que ficou pendente.
Numa comunidade em que quem serve começa a sentir que ninguém percebe seu esforço.
Marta fala de uma experiência humana real: estar ocupada, sentir-se sozinha no trabalho e desejar ajuda.
Podemos olhar para ela com compaixão.
Talvez sua atitude tenha começado como um gesto de acolhimento. Ela recebeu Jesus em casa. Havia cuidado no que fazia.
Mas, durante o encontro, alguma coisa mudou.
As tarefas passaram a vir acompanhadas de inquietação.
O serviço se misturou à comparação.
E a presença da irmã aos pés de Jesus começou a parecer uma injustiça.
Isso também pode acontecer conosco.
Começamos fazendo algo por amor.
Preparamos uma refeição.
Organizamos um encontro.
Cuidamos de uma necessidade.
Depois, sentimos que tudo depende de nós. Ficamos tensos com os detalhes, irritados com quem faz de outro modo e ressentidos por não receber ajuda ou reconhecimento.
Podemos terminar oferecendo algo bem-feito, mas com pouca disponibilidade para quem desejávamos cuidar.
A comida está pronta.
A conversa, porém, mal aconteceu.
A tarefa foi concluída.
A pessoa que estava perto quase não foi ouvida.
Jesus chama Marta pelo nome e fala de sua preocupação com muitas coisas.
Suas palavras alcançam a maneira como ela está vivendo aquele momento.
Isso merece nossa atenção.
Uma tarefa necessária pode ser realizada de um modo que nos afasta do próprio encontro que ela deveria favorecer.
Talvez você esteja preparando algo importante para sua família, mas não consiga ouvir o que alguém tenta lhe contar.
Talvez trabalhe para oferecer segurança às pessoas que ama, mas, quando está com elas, sua atenção continue presa aos problemas do trabalho.
Talvez se dedique a servir numa comunidade e quase nunca encontre espaço para receber a palavra que está ajudando outros a ouvir.
Nessas situações, podemos perguntar:
“Que lugar a presença tem recebido dentro do meu cuidado?”
Maria se sentou aos pés de Jesus.
Escutou.
Recebeu.
Sua atitude nos lembra que o relacionamento com Cristo inclui permitir que Ele fale conosco.
Podemos cuidar de muitas coisas relacionadas à fé e, ainda assim, adiar esse encontro.
Ler pensando apenas no próximo conteúdo que precisamos produzir.
Orar passando rapidamente de um pedido a outro.
Servir sem perceber há quanto tempo não permanecemos em silêncio diante de Jesus.
A vida espiritual também pode adquirir o ritmo de uma lista de tarefas.
Fazemos.
Concluímos.
Seguimos.
Mas há palavras que precisam ser ouvidas com tempo.
Há perguntas que só conseguimos apresentar quando deixamos de correr.
Há partes de nós que precisam receber cuidado antes de encontrar disposição para oferecer mais.
Sentar-se aos pés de Cristo pode ser reconhecer que também somos pessoas a quem Ele deseja ensinar e cuidar.
Essa postura pode acompanhar a vida cotidiana.
Às vezes, haverá um momento reservado para oração e leitura.
Em outros, a atenção a Jesus aparecerá numa pausa breve antes de uma decisão.
Numa pergunta feita enquanto preparamos uma conversa:
“Senhor, ajuda-me a perceber esta pessoa.”
Ou no reconhecimento de que precisamos interromper uma atividade por alguns minutos para ouvir alguém que está ao nosso lado.
Presença antes de produtividade nos convida a examinar o lugar de onde nossas ações partem.
Quando escutamos, podemos compreender melhor o cuidado necessário.
Quando percebemos a pessoa, talvez descubramos que ela precisa de companhia mais do que de uma solução imediata.
Quando ouvimos Cristo, podemos rever uma exigência que acrescentamos à tarefa.
Talvez nem todos os detalhes precisem ficar perfeitos.
Talvez alguma coisa possa esperar.
Talvez seja necessário repartir o trabalho para que todos tenham espaço para o encontro.
Essa última possibilidade importa.
A cena de Maria e Marta não precisa ser usada para exigir que uma pessoa faça tudo serenamente enquanto outras permanecem sem colaborar.
Responsabilidades compartilhadas podem abrir espaço para que todos recebam cuidado, descanso e atenção.
Se você está sobrecarregado, talvez precise conversar sobre a divisão das tarefas.
Se alguém perto de você está assumindo tudo, talvez sua resposta seja oferecer ajuda concreta.
A presença também nos ensina a perceber essas realidades.
Podemos perguntar com gentileza:
“O que falta fazer?”
“Como podemos dividir isso?”
“Podemos simplificar para conseguirmos estar juntos?”
Há dias em que essa mudança será pequena.
Você interrompe o que está fazendo e olha para quem fala.
Guarda o telefone durante uma refeição.
Deixa um detalhe para depois.
Reserva alguns minutos para ouvir uma passagem do Evangelho sem procurar imediatamente uma aplicação ou uma resposta.
Talvez isso pareça pouco diante de uma rotina cheia.
Mas é assim que podemos começar a reorganizar nossa atenção.
A produtividade continuará tendo seu lugar.
Precisaremos trabalhar, cuidar e concluir tarefas.
Podemos fazê-lo lembrando quem está diante de nós e por que começamos.
Marta recebeu Jesus em sua casa.
Talvez hoje também exista uma porta aberta em nossa vida.
E Cristo nos convide a estar presentes no encontro que já começou.
Pense em um momento recente em que você estava fazendo algo por alguém, mas teve dificuldade de prestar atenção nessa pessoa.
Observe o que ocupava sua mente.
A pressa?
Os detalhes?
A sensação de estar fazendo tudo sozinho?
Depois, pergunte:
Em que situação preciso diminuir o espaço das tarefas para oferecer mais presença a Cristo e às pessoas?
Escolha um gesto possível para hoje.
Ouvir sem continuar outra atividade.
Repartir um trabalho.
Simplificar uma preparação.
Ou permanecer alguns minutos diante de Jesus, apenas recebendo sua palavra.
Senhor Jesus,
muitas vezes me reconheço em Marta.
Quero cuidar.
Quero que as coisas funcionem.
Percebo o que falta e começo a fazer.
Mas, no meio das tarefas, posso perder a atenção ao encontro.
Fico inquieto.
Comparo meu esforço.
Sinto que estou sozinho.
E tenho dificuldade de ouvir quem está perto.
Chama-me pelo nome.
Ajuda-me a perceber o que acontece dentro de mim enquanto trabalho e sirvo.
Dá-me sabedoria para reconhecer o que é necessário, o que pode esperar e o que precisa ser compartilhado.
Ensina-me também a receber.
A sentar-me diante de Ti.
A ouvir Tua palavra sem pressa de passar à próxima tarefa.
A permitir que cuides das partes de mim que estão cansadas.
Que minha dedicação abra espaço para as pessoas.
Que eu possa olhar, escutar e perceber suas necessidades reais.
E que, ao cuidar de tantas coisas, eu continue atento à Tua presença.
Senhor, ajuda-me a estar Contigo no encontro que este dia oferece.
Amém.
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