Nem todas as pessoas ouvirão tudo o que temos para dizer sobre a fé.
Algumas talvez não entrem numa igreja.
Não leiam um livro cristão.
Não façam as mesmas perguntas espirituais que fazemos.
Mas perceberão como são tratadas.
Perceberão se foram ouvidas.
Se foram respeitadas.
Se encontramos tempo para cuidar.
Se nossa presença trouxe paz ou peso.
Jesus disse:
“Se tiverem amor uns pelos outros, todos saberão que vocês são meus discípulos.”
(João 13:35)
Ele não disse que as pessoas reconheceriam seus discípulos apenas pela quantidade de conhecimento.
Nem apenas pelas palavras.
Falou sobre amor.
Um amor visível.
Percebido.
Experimentado.
A fé cristã possui palavras importantes.
Precisamos delas.
Mas existe um momento em que aquilo que professamos precisa ganhar corpo.
Na maneira como respondemos.
Na forma como servimos.
Na paciência.
Na generosidade.
No perdão.
No cuidado com quem não pode nos oferecer nada em troca.
É quando o amor começa a ser visto que ele também se torna testemunho.
Podemos falar corretamente sobre graça e ainda tratar alguém com dureza.
Podemos defender a importância do perdão e continuar alimentando ressentimento.
Podemos dizer que Deus ama todas as pessoas e, ao mesmo tempo, fazer alguém se sentir invisível perto de nós.
Existe uma distância possível entre aquilo que professamos e aquilo que transmitimos.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes da fé seja:
“O que as pessoas experimentam quando encontram comigo?”
Não apenas:
“O que elas me ouvem dizer?”
Porque nossas atitudes também falam.
O tom de voz fala.
A forma como tratamos quem nos serve fala.
A maneira como reagimos a um erro fala.
Nossa disposição para ouvir fala.
O modo como tratamos pessoas de quem discordamos fala.
Aquilo que fazemos quando ninguém está observando também fala.
Tiago escreveu:
“A fé, se não tiver obras, está morta em si mesma.”
(Tiago 2:17)
Ele não está dizendo que conquistamos o amor de Deus por nossas obras.
Está lembrando que uma fé viva produz expressão.
Aquilo que acreditamos começa, pouco a pouco, a atravessar nossa maneira de viver.
Isso não significa que precisemos realizar grandes gestos o tempo inteiro.
O testemunho do amor muitas vezes acontece em situações comuns.
Responder com respeito quando poderíamos humilhar.
Acolher uma pessoa nova.
Dividir uma refeição.
Visitar alguém cansado.
Não participar de uma conversa que destrói a reputação de outra pessoa.
Cumprir uma promessa.
Reconhecer um erro.
Pedir perdão.
Essas atitudes talvez nunca apareçam publicamente.
Mas alguém as experimentará.
E talvez, através delas, perceba algo do caráter de Cristo.
Também precisamos tomar cuidado para não transformar o amor em estratégia.
Não tratamos bem as pessoas para convencê-las de alguma coisa.
Não servimos apenas para produzir uma oportunidade de falar.
O amor cristão não precisa usar alguém como projeto.
Nós amamos porque fomos amados.
Servimos porque a graça nos alcançou.
Cuidamos porque reconhecemos dignidade no outro.
Se uma conversa sobre fé surgir, falamos com respeito.
Mas o cuidado não perde seu valor caso essa conversa nunca aconteça.
Jesus não nos ensinou a amar apenas quem responderia da maneira que desejamos.
O bom samaritano não perguntou primeiro se o homem ferido concordava com suas crenças.
Ele viu.
Aproximou-se.
Cuidou.
O amor atravessou a distância.
Esse é um testemunho poderoso.
A pessoa talvez esqueça algumas palavras que dissemos.
Mas pode lembrar durante muito tempo como se sentiu perto de nós.
Lembrará se foi julgada antes de ser ouvida.
Se sua dor foi diminuída.
Se sua fragilidade foi usada contra ela.
Ou se encontrou respeito.
Presença.
Misericórdia.
É claro que não conseguiremos tratar todos perfeitamente.
Falharemos.
Teremos dias ruins.
Em alguns momentos, nosso próprio testemunho será reconhecer:
“Eu não deveria ter tratado você assim.”
Isso também comunica o evangelho.
Porque o testemunho cristão não é aparência de perfeição.
É uma vida que aprende a retornar ao amor.
Que reconhece quando falhou.
Que repara quando possível.
Que se deixa transformar por Cristo.
Há algo particularmente importante na forma como tratamos pessoas que não podem nos oferecer vantagem.
Quem não possui influência.
Quem ocupa posições simples.
Quem está socialmente esquecido.
Quem chegou sem recursos.
Quem é inconveniente para nossa agenda.
Jesus repetidamente voltou sua atenção para pessoas que outros atravessavam sem perceber.
Esse amor desestabiliza nossa lógica comum.
Porque o mundo frequentemente mede pessoas por utilidade, status ou reciprocidade.
Cristo devolve dignidade.
Talvez seja exatamente aí que nosso amor se torne mais visível.
Quando tratamos com honra alguém que muitos ignoram.
Quando permanecemos perto de quem não pode retribuir.
Quando oferecemos cuidado sem precisar de reconhecimento.
O testemunho também aparece dentro de casa.
Às vezes, somos pacientes com desconhecidos e duros com quem vive perto.
Servimos publicamente e esquecemos pequenas necessidades privadas.
Mas aqueles que convivem conosco observam a versão da fé que nossas palavras não conseguem esconder.
A forma como tratamos família.
Colegas.
Funcionários.
Amigos.
Pessoas cansadas.
É ali que o evangelho encontra um de seus campos mais concretos.
Isso não deve produzir culpa.
Deve produzir consciência.
Cristo não nos chama a representar amor.
Ele nos chama a permanecer nele para que o amor comece a transformar nossas respostas.
Não precisamos acordar perguntando:
“Como posso parecer um bom cristão?”
Podemos perguntar:
“Jesus, como posso amar a pessoa que colocaste diante de mim hoje?”
Talvez seja esse o testemunho mais verdadeiro.
Um amor não teatral.
Não calculado.
Não interessado em impressionar.
Apenas uma vida que foi tocada pela graça e, por isso, começa a tocar outras vidas de maneira diferente.
As pessoas talvez não ouçam tudo o que dizemos.
Mas perceberão como são tratadas.
E, às vezes, essa será a primeira parte do evangelho que conseguirão enxergar.
Pense nas pessoas que convivem com você diariamente.
Família.
Colegas.
Pessoas que prestam algum serviço.
Alguém de quem você discorda.
Alguém que exige mais paciência.
Se elas conhecessem Cristo apenas através da maneira como são tratadas por você, que imagem receberiam?
O que meu modo de tratar as pessoas está dizendo sobre o amor em que afirmo acreditar?
Não transforme a pergunta em acusação.
Transforme-a em convite.
Escolha uma relação concreta e peça a Cristo que torne seu amor mais visível ali.
Senhor Jesus,
não quero apenas falar sobre Teu amor.
Quero aprender a vivê-lo.
Que minhas palavras e minhas atitudes não caminhem em direções opostas.
Ensina-me a tratar pessoas com a dignidade que encontro em Ti.
A ouvir.
A servir.
A perdoar.
A respeitar.
A cuidar sem interesse.
Livra-me de transformar o amor em aparência ou estratégia.
Que eu ame porque primeiro fui amado.
Quando eu falhar, dá-me humildade para reconhecer.
Quando alguém for ignorado, dá-me olhos para perceber.
Quando estiver diante de uma pessoa difícil, lembra-me de que ela também possui uma história que eu não conheço completamente.
Que minha vida não tente impressionar.
Que apenas revele, pouco a pouco, algo do Teu coração.
Cristo, faz do meu modo de tratar as pessoas um testemunho da graça que recebi de Ti.
Amém.
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