Talvez você tenha tentado encontrar um momento melhor para se aproximar de Deus.
Quando a mente estivesse mais tranquila.
Quando conseguisse organizar os sentimentos.
Quando tivesse palavras para explicar o que está acontecendo.
Mas os dias passaram, e esse momento não chegou.
Você continua cansado.
Há pensamentos que se misturam, uma tristeza difícil de nomear ou apenas a sensação de ter oferecido mais do que conseguiu renovar.
Jesus conhece a pessoa que chega assim:
“Venham a mim todos vocês que estão cansados ou sobrecarregados e eu lhes darei descanso.”
(Mateus 11:28)
Os cansados estão dentro do convite.
Podemos ouvir essas palavras sem transformar nossa aproximação em mais uma tarefa para a qual precisamos estar preparados.
Cristo nos chama com a vida como ela está.
Talvez hoje nossa resposta seja apenas:
“Jesus, cheguei. Não consigo explicar tudo, mas preciso estar Contigo.”
Há dias em que até falar sobre o cansaço parece cansativo.
Alguém pergunta o que aconteceu, e você não sabe por onde começar.
Não houve necessariamente um único problema.
Foram pequenas exigências acumuladas.
Uma noite mal dormida.
Uma conversa difícil.
Uma responsabilidade que cresceu.
Uma preocupação que não encontrou descanso.
Você foi atravessando tudo isso. E agora percebe que está sem disposição até para organizar a própria história.
Talvez o mesmo aconteça na oração.
Você se senta por alguns minutos, mas a mente continua correndo.
Começa uma frase e perde o fio.
Lembra de uma tarefa.
Pensa no que precisa resolver depois.
Então se cobra:
“Eu deveria conseguir me concentrar.”
“Deveria ter mais fé.”
“Deveria chegar à presença de Deus de outro jeito.”
Essa cobrança acrescenta peso ao que já estava pesado.
Jesus nos convida a nos aproximar com aquilo que precisamos apresentar a Ele. Podemos chegar sem uma explicação completa.
O cansaço que você ainda não consegue organizar também pode encontrar lugar na oração.
Talvez você esteja habituado a preparar-se antes de encontrar as pessoas.
Escolhe as palavras.
Ajusta o tom.
Pensa no que pode dizer e no que precisa guardar.
Em algumas relações, isso é necessário. Nem todos os ambientes acolhem nossa vulnerabilidade com cuidado.
Mas podemos levar esse hábito para a vida com Deus e começar a acreditar que também diante dEle precisamos manter uma versão bem organizada de nós mesmos.
A pessoa que entende o que sente.
Que sabe agradecer antes de admitir a dor.
Que consegue explicar sua dificuldade com serenidade.
Há espaço para tudo isso na oração. Há espaço também para o que ainda não se tornou claro.
Podemos dizer:
“Hoje não sei o que está acontecendo comigo.”
“Tenho vontade de chorar, mas não sei por quê.”
“Estou irritado e percebo que meu cansaço tem afetado as pessoas.”
“Preciso de descanso, mas tenho dificuldade de parar.”
Essas palavras podem abrir uma conversa sincera com Cristo.
Às vezes, ao permanecer um pouco em sua presença, começamos a perceber o que antes estava misturado.
Uma mágoa que vínhamos adiando.
Uma responsabilidade que precisa ser repartida.
Um medo que ocupa nossos pensamentos.
Uma necessidade simples do corpo: dormir, alimentar-se, fazer uma pausa.
Em outros momentos, nada fica claro imediatamente.
Você continua sem saber explicar.
Ainda assim, pode permanecer.
Não é necessário exigir que cada momento de oração produza uma descoberta, uma decisão ou um alívio perceptível.
Há encontros em que conseguimos apenas estar presentes.
Pense na companhia de alguém em quem você confia.
Às vezes, essa pessoa não resolve sua dificuldade. Nem encontra uma frase capaz de tornar o dia leve. Mas você percebe que pode respirar um pouco, porque não precisa sustentar tudo enquanto está ali.
A proximidade de Cristo pode ser buscada com essa mesma honestidade.
Você pode falar.
Pode chorar.
Pode permanecer em silêncio.
Pode dizer uma única frase e repeti-la devagar.
O Novo Testamento também reconhece que nem sempre sabemos como orar. Em Romanos 8:26, Paulo fala do auxílio do Espírito em nossa fraqueza, inclusive quando nos faltam palavras.
Essa lembrança pode nos ajudar nos dias em que chegamos sem uma oração pronta.
Nossa dificuldade de expressão não precisa interromper a aproximação.
Há, porém, algo importante a perceber: quando acolhemos o próprio cansaço, começamos a ouvir necessidades que a pressa costuma encobrir.
Talvez você precise de ajuda para cuidar de alguém.
Talvez esteja trabalhando sem pausas possíveis porque ainda não conversou sobre a divisão das tarefas.
Talvez tenha assumido compromissos que agora precisam ser revistos.
Talvez esteja atravessando uma fase dolorosa e precise de alguém que o acompanhe.
Essas necessidades podem ser apresentadas a Jesus. E podem ser compartilhadas com pessoas capazes de oferecer cuidado.
Receber ajuda também pode fazer parte do caminho de descanso.
Para quem sempre ocupa o lugar de quem sustenta, isso pode ser difícil.
Você talvez pense que não tem o direito de parar porque outras pessoas também estão cansadas.
Ou que falar sobre o que sente tornará a vida de alguém mais pesada.
Mas seu cansaço merece atenção.
Ele afeta a maneira como você trabalha, escuta, decide e se relaciona. Reconhecê-lo pode ajudá-lo a cuidar melhor da vida que lhe foi confiada.
Às vezes, essa atenção começa com algo muito pequeno.
Aceitar que alguém prepare a refeição.
Pedir companhia para uma conversa difícil.
Dizer que precisa de alguns minutos antes de responder.
Dormir em vez de continuar tentando concluir tudo.
Talvez seja esse o gesto possível depois da oração de hoje.
Não precisamos transformar o descanso em mais uma meta exigente.
Podemos começar por reconhecer como estamos.
Chegar a Cristo.
Pedir cuidado.
E escutar, aos poucos, o que precisamos fazer.
Ontem ouvimos o convite: “Venham a mim.”
Hoje, podemos permitir que ele alcance justamente a parte de nós que costuma ficar do lado de fora.
A parte sem disposição.
Sem clareza.
Sem palavras bonitas.
Aquela que gostaria de estar melhor antes de se apresentar.
Você pode chegar com ela também.
E dizer:
“Jesus, é assim que estou hoje.”
Reserve alguns minutos e perceba como você está, sem tentar mudar imediatamente o que sente.
Observe o corpo.
A respiração.
Os pensamentos que retornam.
Talvez consiga nomear seu cansaço. Talvez ainda não.
Pergunte em silêncio:
O que tenho tentado esconder de Cristo por achar que preciso chegar melhor do que estou?
Apresente a Ele o que conseguir reconhecer.
Se faltarem palavras, permaneça com esta oração:
“Jesus, estou cansado. Fica comigo.”
Senhor Jesus,
hoje chego como consigo.
Talvez minhas palavras sejam poucas.
Talvez meus pensamentos estejam dispersos.
Há coisas dentro de mim que ainda não sei explicar.
Mas ouço Teu convite e quero me aproximar.
Recebe meu cansaço.
O que aparece no corpo.
O que se acumulou nas preocupações.
E o que tenho guardado para continuar cuidando de tudo.
Ajuda-me a falar com sinceridade, sem exigir de mim uma oração perfeita.
Quando eu não souber o que dizer, ensina-me a permanecer Contigo.
Mostra-me as necessidades que venho ignorando.
Dá-me humildade para receber ajuda.
Sabedoria para rever o que me sobrecarrega.
E liberdade para descansar quando for necessário.
Cuida também das pessoas que têm sentido os efeitos do meu cansaço.
Ajuda-me a reconhecer quando preciso pedir perdão, fazer uma pausa ou conversar com mais calma.
Senhor, não tenho tudo organizado dentro de mim.
Ainda assim, aqui estou.
Acolhe minha vida e acompanha-me neste dia.
Amém.
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